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Conhecendo o Livro de Atos

  • 6/11/2018

ÍNDICE

 

INTRODUÇÃO AO LIVRO DE ATOS 

TÍTULO 

PONTE UNINDO DOIS BLOCOS LITERÁRIOS 

Combate ao Marcionismo e a Origem do Título 

ORIGEM E PROPÓSITO 

Propósito Principal 

Atos contra o Marcionismo II 

GRÁFICO 

Propósitos Secundários 

1. Propósito apologético 

2. Propósito polêmico 

3. Propósito conciliatório 

4. Propósito vindicatório 

DATA E LOCAL 

1ª hipótese: II século 

2ª hipótese: I século depois de 70AD 

3ª hipótese: I século antes de 70AD 

AUTORIA 

Evidências externas: 

Evidências internas: 

Aparentes dificuldades quando se atribui a Lucas a autoria de Atos 

a. Epístolas pré-prisão: 

b. Epístolas da prisão: 

c. Epístolas pastorais: 

FONTES 

CARACTERÍSTICAS DO LIVRO DE ATOS 

COMENTÁRIO DE ATOS 1 - 7 

CAPÍTULO 1 

CAPÍTULO 2 

Aplicações homiléticas: 

CAPÍTULO 3 

CAPÍTULO 4 

CAPÍTULO 5 

CAPÍTULO 6 

CAPÍTULO 7 

DEZ PARALELOS ENTRE JESUS E ESTÊVÃO 

 

ATOS E EPÍSTOLAS

Profº José Carlos Ramos

 

INTRODUÇÃO AO LIVRO DE ATOS

TÍTULO

 

O 5º livro do Novo Testamento é conhecido com Atos dos Apóstolos desde a metade do II século. O título é impróprio pelo menos por duas razões fundamentais: (1) o livro não apresenta os atos de todos os apóstolos, e (2) o livro narra os atos de vários discípulos que não eram apóstolos: Estêvão, Filipe (o diácono), Silas, Apolo, etc. É na verdade o II volume da história da origem do Cristianismo, sendo o evangelho de Lucas o I volume.

Ponte Unindo Dois Blocos Literários

Talvez o 3º Evangelho e o livro de Atos circularam inicialmente como uma só obra. No fim do I século, ou mais provavelmente no início do II, os 4 Evangelhos foram reunidos numa coleção e passaram a circular como um evangelho quádruplo. Assim o que era uma só obra foi desmembrada em duas.

Essa coleção passou a ser conhecida como O Evangelho. Na mesma época, uma outra coleção, conhecida como O Apóstolo, circulava entre as igrejas. Formada fundamentalmente, mas não exclusivamente, pelas epístolas paulinas, reunia os ensinos apostólicos, enquanto a primeira expunha a vida e ensinos do fundador da Igreja.

O livro de Atos é um hiato, uma ponte entre as duas coleções. Com respeito à primeira, ele é uma sequência natural aos fatos relacionados com a vida, morte, ressurreição e ascensão de Jesus. Com respeito à segunda, providencia o background para a origem das epístolas paulinas. Supre também a necessária evidência da genuinidade apostólica de Paulo.

 

Combate ao Marcionismo e a Origem do Título

 

A heresia surgiu na metade do II século. Marcion, seu expositor, afirmava em Roma que Cristo havia estabelecido uma religião nova, sem qualquer vínculo com a história de Israel. O Velho Testamento deveria ser totalmente rejeitado pois apresentava a ação de um Deus que não somente não poderia ser o Pai de Jesus, mas, em certo sentido, era antagônico a Ele: sendo rigorosamente justo, esse Deus impusera aos homens uma lei impossível de ser cumprida, ocasionando a queda e a degeneração da raça. Por outro lado, o Pai de Jesus, o Deus onipotente e ao mesmo tempo misericordioso e compassivo, enviara-O para ser o Salvador. Jesus, o Messias, não correspondia ao Messias anunciado pelo antigos profetas. A religião de Jesus era absolutamente nova. Apenas Paulo era um apóstolo legítimo, pois fielmente preservara a religião de Cristo em sua pureza original, sem qualquer contaminação com o judaísmo. Prova disto era o aparente combate que Paulo fez à lei, e seus embates contra elementos judaizantes de seu tempo. Assim Marcion estabeleceu o seu próprio Cânon: apenas as epístolas paulinas (excetuando as pastorais) e o Evangelho de Lucas eram inspirados.

A Igreja combateu o marcionismo reafirmando sua aceitação do Velho Testamento como Palavra de Deus e considerando o Novo Testamento o seu complemento final e absoluto. A mensagem do evangelho deveria ser recebida em suas 4 versões, e a apostólica não se limitava aos escritos de Paulo. O valor do livro de Atos no combate à heresia foi logo reconhecido: a igreja primitiva aparece inicialmente vinculada ao templo, todos os apóstolos são referidos, Pedro (às vezes apresentado em companhia de João) ocupa lugar prioritário na primeira metade do livro, e cada escritor do Novo Testamento recebe alguma referência no relato. Além disso a obra era, em geral, aceita como de Lucas, o escritor autor cujo Evangelho era aceito pelo herege.

Assim, é possível concluir que o título Atos dos Apóstolos tenha se originado do combate ao marcionismo. Um documento surgido entre 150 e 180AD, conhecido como O Prólogo Anti-Marcionista do 3º Evangelho, registra este título para o livro de Atos, e o atribui a Lucas, o médico de Antioquia, o mesmo que escreveu o Evangelho. No fim do II século, um outro documento, conhecido como Cânon Muratório, intitula o livro de Atos de Todos os Apóstolos, sem dúvida um maior empenho por se destacar a genuinidade apostólica de cada apóstolo como um fato exposto em Atos.

 

ORIGEM E PROPÓSITO

 

O ter sido usado no combate ao marcionismo tem levado alguns teólogos modernos a sugerir que o livro de Atos, na forma como hoje aparece em nossa Bíblia, foi elaborado no II século. Acreditam numa possível divergência ocorrida no I século entre Pedro e seu partido e Paulo e seu partido, e que o livro na forma original faria menção desta divergência. Considerando que isto seria grandemente proveitoso para Marcion, a Igreja tratou de conciliar o que poderia ser chamado os opostos pontos de vista petrino e paulino, submetendo o livro de Atos a uma nova elaboração e deixando-o na forma atual.

Se isto realmente ocorreu, é simplesmente estranho que Marcion não haja denunciado o fato, nem utilizado a forma original de Atos para seus propósitos. Ademais, três evidências conspiram contra esta suposição:

(1) A atmosfera histórica, geográfica e política do Evangelho de Lucas e do livro de Atos como um todo pertence sem dúvida ao I e não ao II século.

(2) As evidências internas de Atos não sugerem que o principal propósito do autor tenha sido reivindicar a genuinidade apostólica de cada apóstolo, o que confirma a impropriedade do título que ostenta. Tivesse o livro sido composto na época de Marcion, as referências às atividades dos apóstolos seriam bem mais abrangentes e extensas.

(3) O argumento contra Marcion requer que se demonstre que os demais apóstolos são tão genuínos quanto Paulo. Mas em Atos, ocorre exatamente o contrário. O empenho do escritor é demonstrar que Paulo é tão genuíno apóstolo como os demais. A época de produção do livro, inclusive na forma como ele aparece na Bíblia, é o I século e não o II, quando dúvidas ocorreram quanto à apostolicidade de Paulo.

Propósito Principal

O propósito principal de Atos deve ser observado à luz do prólogo do Evangelho de Lucas que também se liga ao livro de Atos se, como é suposto, ambos os livros formaram de início uma só obra. Luc 1:1-4:

v. 1 - “fatos entre nós ocorridos” - de quando a quando?

vv. 2, 3 - “desde o princípio” (origem) até Teófilo ser instruído (época apostólica).

v. 2 - “conforme nos transmitiram” - o autor não foi testemunha ocular dos eventos iniciais, e de uma boa parte dos eventos posteriores.

v. 1 - “muitos houve” - outros empreenderam fazer o mesmo. Mas Lucas apresenta os eventos numa sequência própria, fruto de pesquisa acurada.

O propósito principal de Atos coincide com o propósito principal dos escritos lucanos: dar a um certo Teófilo informações precisas quanto à divina origem e desenvolvimento da fé cristã a fim de confirmar as instruções por ele recebidas e deixá-lo seguro da certeza dos fatos.

Informações dadas pelo autor:

(1) iniciais - por pesquisa

(2) posteriores - pesquisa e testemunho pessoal

(3) finais - testemunho pessoal

O I volume, o Evangelho de Lucas, mostra como tudo começou. É ali reunida a essência do relatório apostólico quanto à vida, mensagem, sofrimento e triunfo de Jesus. O relato começa com o incidente de Zacarias, pai de João Batista, no templo, e conclui com as últimas orientações de Jesus aos discípulos nas cercanias de Jerusalém.

O II volume, Atos, mostra a continuidade dos fatos após a ressurreição de Jesus; como a Igreja inicia e desenvolve seu ministério triunfante, que é, na realidade, a sequência do ministério de Jesus. Inicia com o último lance do evangelho e termina com a presença de Paulo na capital do império. Os dois volumes revelam como o movimento cristão, iniciado e preliminarmente estabelecido na Palestina, avança até a conquista do mundo. Para o autor, e isto ele procura deixar bem claro a Teófilo, o Cristianismo é o produto da triunfal operação de Deus no mundo, cumprindo seu propósito de salvação entre os homens.

Atos contra o Marcionismo II

A teologia liberal de nossos dias estabelece uma distinção crítica entre o Jesus da História, o real, o genuíno, e o Cristo glorificado, concebido pela Igreja. Com a ajuda de Atos a questão Jesus histórico X Cristo glorificado é resolvida. O livro nos revela que o mesmo Espírito que atuou em Jesus durante Sua vida terrestre, atua agora na Igreja. Em Atos 1:2 o Espírito Santo ainda atua em Jesus após a ressurreição. Não há, portanto, uma quebra de sequência entre Cristo antes da ressurreição e depois. A partir de Atos 2 o mesmo Espírito atuará na Igreja. O Espírito Santo é a garantia de uma unidade perfeita, de um contínuo histórico ininterrupto entre o Cristo pré e pós-ressurreição e a Igreja. E isto Atos revela claramente.

A concepção da história apostólica em Atos é que ela é o trabalho que Jesus ainda cumpre pelo Espírito Santo. O ministério da Igreja é ainda o ministério de Cristo porque o mesmo Espírito que ungiu a Cristo ungiu a Igreja. Negar isto é negar o próprio cristianismo e relegá-lo a uma simples invenção humana.

Compare Luc 4:16-21; 7:18-22; Atos 10:36-43; 3:6, 12, 16, e observe que milagres da mesma natureza dos relatados no Evangelho são relatados em Atos como efetuados pela apóstolos; mas na realidade é Jesus o autor deles. Em lugar de Cristo perguntar a Paulo “por que persegues a Minha Igreja?”, pergunta-lhe “por que Me persegues?” (Atos 9:4). Há um senso de unidade entre Cristo e a Igreja.

Isto pode ser ilustrado da seguinte maneira:

Gráfico

 

A previsão profética do ministério do Messias, segundo Isa 61:1; 49:6 e 42:6 é dupla: Ele seria restaurador de Israel e luz para os gentios. Lucas registra estas previsões em referência a esse ministério (Luc 2:32; 4:16-21), mas exclusivamente o ministério do Cristo histórico restringiu-se quase que inteiramente a Israel. Cristo se torna luz para os gentios através do ministério da Igreja (Atos 26:23), e aquilo que é previsto do Messias em Isa 49:6 e 42:6 é aplicado à Igreja, na pessoa de Paulo, em Atos 13:47.

É verdade que a Igreja em Atos dá atenção, em seu ministério, aos judeus igualmente. Mas devemos lembrar que o Cristo histórico deu também atenção, em Seu ministério, aos gentios, o que confirma que a Igreja é a plenitude de Cristo, e é considerada Seu corpo (Efés 1:22, 23).

Propósitos Secundários

1. Propósito apologético

A ser observado em relação às autoridades civis, à religião judaica, e às religiões pagãs.

Atos oferece uma defesa do cristianismo às acusações feitas contra ele no I século até a década de 60. Preconceito e suspeita por parte de líderes governamentais de Roma por todo o império colocavam o cristianismo em suspeita. Afinal Cristo havia sido condenado por um tribunal romano na Judéia, acusado de sedição. Além disso, o movimento causava tumulto e desordem onde se fazia presente.

Lucas propõe reduzir ou mesmo remover o preconceito e a suspeita, e desembaraçar o caminho para o avanço da fé. De início ele dedica os livros a Teófilo, possivelmente um nobre do palácio imperial, e segue mostrando que Jesus foi um homem de bem, e que sua condenação foi um erro judicial. Pilatos e Herodes reconheceram a inocência dEle (Luc 23:4, 11, 14, 15, 20, 22, 24), e o fato de o Procurador O condenar se deve à influência dos líderes judeus. Pilatos fora, na verdade, compelido. O mesmo ocorria posteriormente com Paulo e outros pregadores. Os oficiais gentílicos, e mesmo judaicos, atestavam a inocência deles (Atos 13:7, 12; 16:37ss; 18:12ss; 19:31, 35ss; 23:29; 24:23, 27; 25:9-12, 24, 25-27; 26:30-32; 28:30, 31). A liderança religiosa dos judeus era responsável pelos tumultos, não os pregadores cristão. Ela não aceitava a mensagem e se indispunha quando os gentios, principalmente os prosélitos, a aceitavam.

A maneira como Atos traça a trajetória triunfante do cristianismo como revelação plena e final de Deus ao homem, faz com que o mesmo se sobreponha ao judaísmo e se contraponha ao paganismo. A afirmação que “Deus não habita em casas feitas por mãos humanas”, no contexto do judaísmo (7:48), e “não habita em santuários feitos por mãos humanas”, no contexto do paganismo (17:24), pressupõe esse fato, e formalizam o cristianismo como o culto definitivo.

2. Propósito polêmico

para ressaltar a prioridade judaica em receber o evangelho, e seu ato de rejeitar a verdade.

A fé cristã, que parte dos judeus e é oferecida primeiramente a eles, acaba por se tornar mais gentílica do que judaica por culpa exclusiva dos judeus. O livro apresenta isto em todo o seu curso e encerra com esta afirmação.

A pregação inicial é aos judeus (caps. 2 a 8), e mesmo depois que a mesma passa aos gentios, os judeus têm a prioridade (11:19; 13:4, 5, 14-16, 42-46; 14:1, 2; 17:1-5, 10, 17; 18:4, 5, 6, 19, 26, 28; 19:8, 9; 28:17, 23-25; 28:17-28). Apesar disso, eles não a aceitam. O judaísmo é, então, rejeitado e o cristianismo se torna o seu legítimo sucessor. Mais que isto, ele é o genuíno cumprimento do judaísmo. As aspirações messiânicas judaicas devem encontrar no cristianismo sua cristalização (28:20), isto é, o judaísmo cumpre seu destino mundial e final no cristianismo.

3. Propósito conciliatório

Para esclarecer ou eliminar dúvidas a respeito da harmonia entre os apóstolos, principalmente Pedro e Paulo -- o primeiro passando a ser conhecido como apóstolo da circuncisão, e o último como apóstolo da incircuncisão (Gál 2:8).

Judeus e gentios são respectivamente significados, mas Atos mostra que Pedro inaugurou o evangelho aos gentios e Paulo nunca deixou de pregar aos judeus.

4. Propósito vindicatório

Para evidenciar à igreja, especialmente à comunidade cristã-judaica, a genuinidade apostólica de Paulo.

Seu apostolado é tão autêntico como o de Pedro e dos demais. Atos é dividido em duas metades, sendo Pedro a figura exponencial da primeira, e Paulo o da segunda. É possível detectar um paralelo entre Pedro, na primeira metade, e Paulo na segunda:

 

Pedro

Evento

Paulo

3:2ss

Curou um coxo

14:8ss

5:16

Exorcizou demônio

16:18

8:18ss

Triunfante encontro com um feiticeiro

13:6ss

9:36ss

Levantou um morto

20:9ss

12:7ss

Miraculosamente tirado da prisão

16:25ss

5:15

Influenciou curas

l9:11, 12

 

Para completar o equilíbrio conciliatório nas duas metades, notamos uma referência de um evento com Paulo na primeira metade (9:1-31), e uma referência de um evento com Pedro na segunda metade (15:6-11).

 

DATA E LOCAL

 

1ª hipótese: II século

A posição de alguns liberais é pelo II século, com duas aparentes evidências: reação anti-marcionista (como já visto), e Flávio Josefo como possível fonte informativa para o autor de Atos.

Os escritos de Josefo começaram a circular no fim do I século e início do II. Suas obras foram editadas por volta de 93AD. É alegado que Atos 5:36, 37 é extraído de referências sobre Teudas e Judas feitas por Josefo. Mas a esta hipótese faltam evidências. O autor de Atos escreveu com base em pesquisa, certamente a exemplo de Josefo mais tarde, e colheu informações acerca da menção dos dois falsos messias feita por Gamaliel ao Sinédrio. Talvez o informante de Lucas tenha sido o próprio Paulo. Já vimos que a atmosfera de Atos é mais do I do que do II século.

 

2ª hipótese: I século depois de 70AD

É fundamentada exclusivamente em Luc 21:20 comparado com Mat 24:15 e Mar 13:14:

Luc 21:20: “Jerusalém sitiada de exércitos...”

Mat 24:15: “abominável da desolação no lugar santo...”

Mar 13:14: “abominável da desolação situado onde não deve estar...”

Segundo esta hipótese, Lucas interpretou a predição de Jesus baseada em Daniel e viu no cerco de Jerusalém o cumprimento da mesma. Logo, o Evangelho foi escrito quando Jerusalém estava cercada ou mesmo depois de sua destruição, o que automaticamente coloca a produção de Atos para além de 70. Mas é melhor considerar que Jesus usou as duas expressões, que Mateus e Marcos registraram uma e Lucas a outra. Afinal, Jesus foi o Profeta por excelência.

Se Lucas escreveu Atos depois de 70AD é incompreensível que ele não haja feito referência alguma à destruição da cidade, nem às epístolas de Paulo que já deveriam neste tempo circular pelas igrejas mencionadas no próprio livro.

 

 

3ª hipótese: I século antes de 70AD

Mas não antes de 54, pois Atos 11:28 faz referência ao reinado de Cláudio (41-54AD) como já estando no passado. Tampouco antes de 60, pois a chegada de Paulo a Roma (Atos 28) deve ter ocorrido em 59 ou 60, talvez mesmo 61, se considerarmos 60AD o ano em que Festo sucedeu a Félix (Atos 24:27). Mais dois anos de permanência de Paulo em Roma (Atos 28:30) nos levam a 62, no máximo 63AD. Lucas deve ter terminado o livro entre 63 e 66 em Roma.

Dois fatos desta época chamam a atenção: (1) a revolução dos Zelotes em Jerusalém em 66AD, atraindo a perseguição aos judeus. Poderia ter Lucas apressado o término de seu livro para ajudar a Igreja a atestar sua inocência e não envolvimento no levante judaico? (2) a segunda prisão de Paulo e seu posterior martírio em 66/67AD. Teria a obra sido encerrada abruptamente para ser um instrumento de defesa para Paulo? Estaria Atos realçando a impropriedade de Paulo ser acusado do incêndio de Roma ocorrido em 19 de julho de 64?

Estas são meras possibilidades, sendo a mais provável que o livro haja sido encerrado abruptamente para ajudar Paulo em sua defesa na I prisão. A dedicação do mesmo a Teófilo é significativa, considerando-se a hipótese de ter sido ele o advogado de defesa do apóstolo.

 

AUTORIA

 

Evidências externas:

A primitiva tradição aponta para Lucas como o escritor. Há, da metade do II século em diante, uma crença generalizada na autoria lucana. O Cânon Muratório (fim do II século) registra o autor como sendo Lucas, o médico amado, amigo e companheiro de Paulo, e autor do 3º Evangelho.

Entre os pais da Igreja mais mencionados, e que atestam a autoria lucana de Atos, estão Irineu (150AD), Clemente de Alexandria (170AD), Tertuliano (190AD), e Orígenes (200AD).

 

Evidências internas:

(1) O prólogo de Lucas e o de Atos evidenciam que as duas obras saíram da mesma pena. O Evangelho é, naturalmente, “o 1º tratado”; o “2º tratado” é igualmente dedicado a Teófilo.

(2) Expressões e vocabulário em ambas as obras indicam alguém familiarizado com a escrita médica. Lucas era médico.

(3) O escritor foi companheiro de Paulo, como o demonstram as seções nós (seções em o autor se inclui na participação dos eventos narrados):

16:10-17 - a viagem de Paulo de Troas a Filipos, na Macedônia.

20:5-15 - a viagem de Paulo de Filipos a Troas

21:1-18 - a viagem de Paulo a Tiro, Cesaréia e Jerusalém

27:1-28:16 - a viagem de Paulo, como prisioneiro, a Roma

(4) Havia outros companheiros de viagem com Paulo (Atos 20:4), mas estes são mencionados por nome e se colocam na companhia de quem escreveu o livro (20:5). Lucas não registra seu nome por modéstia. Tito também não é mencionado; crê-se que ele era irmão de Lucas. Tito não pode ter sido o autor porque não acompanhou Paulo a Roma, enquanto Lucas o fez. Ele é mencionado pelo próprio Paulo como estando em sua companhia na primeira prisão (Col 4:14; Filem 24).

 

Aparentes dificuldades quando se atribui a Lucas a autoria de Atos

(1) As epístolas de Paulo não são referidas em Atos. Como um companheiro de Paulo poderia não mencionar suas epístolas?

As epístolas são divididas em três grupos:

a. Epístolas pré-prisão:

Romanos - 58AD, de Corinto (3ª viagem)

I Coríntios - 57AD (primavera), de Éfeso (3ª viagem)

II Coríntios - 57AD (verão), da Macedônia (3ª viagem)

Gálatas - 46/47AD, de Antioquia (fim da 1ª viagem), ou

51AD, de Corinto (2ª viagem), ou

57/58AD, de Corinto (3ª viagem)

I Tessalonicenses - 51AD, de Corinto (2ª viagem)

II Tessalonicenses - 51/52AD, de Corinto (2ª viagem)

b. Epístolas da prisão:

Efésios

Filipenses

Colossences

Filemon, as 4 entre 61-63, de Roma

c. Epístolas pastorais:

I Timóteo - 64/65AD

Tito - 65/66AD. Esta e a anterior foram escritas após Paulo ser libertado

II Timóteo - 66/67AD, na 2ª prisão, em Roma

Apenas as epístolas do 1º grupo estão envolvidas no tempo coberto pela maior parte do relato de Atos. Lucas não estava com Paulo quando elas foram escritas. Talvez Lucas nem tenha tomado conhecimento delas. Mas se Paulo o informou a respeito, não foram referidas nos Atos por fugirem ao escopo do livro. As epístolas são de natureza didática, enquanto Atos é de natureza kerygmática.

 

(2) Atos não registra as doutrinas que Paulo ensinava, principalmente justificação pela fé, o sentido expiatório da morte de Jesus, etc.

Seriam as doutrinas paulinas do interesse do escritor para o alcance de seus objetivos? Devemos observar mais uma vez que o conteúdo fundamental de Atos é o kérygma, enquanto o das epístolas é o didaché. Atos se preocupa com o estabelecimento de igrejas e a expansão da fé cristã. O material contido nas epístolas é para confirmar a fé, fortalecer as igrejas nascentes, fazer face a problemas internos, falsos ensinos, etc. Em Atos é dada ênfase à mensagem da ressurreição de Cristo (o centro do kérygma), evangelisticamente. Ênfase semelhante encontramos nas epístolas com outro objetivo.

A justificação pela fé é referida de passagem em Atos 13:39, num sermão evangelístico. O meio de salvação é exposto ao carcereiro de Filipe - “crer no Senhor Jesus” (16:31). Referência ao sentido redentivo da morte de Jesus é feita aos anciãos da igreja de Éfeso (Atos 20:28).

 

(3) O Paulo do livro de Atos usa de atitude contraditória ao Paulo das epístolas. Exemplo: Em Atos Paulo circuncida (16:3) e guarda a lei (21:23-26). O Paulo das epístolas condena estas coisas (Gál 2:3-5; 5:2, etc.).

Paulo não condena o simples ato da circuncisão. Ele condena a circuncisão como meio de salvação. A circuncisão em Timóteo, segundo Atos 16:3, foi feita por prudência e conveniência, para que o companheiro de Paulo tivesse livre acesso aos meio judeu. Em Atos 21 prudência também é o elemento motivador. Mas observe a fama de Paulo no v. 21. Em 24:17-21 ele se vale, diante dos acusadores, da prudência adotada ao ir ao templo. Com efeito, no contexto da salvação o Paulo de Atos também rejeita a circuncisão - Atos 15:1, 2 (Cf. I Cor 7:18, 19).

 

(4) Atos não menciona algumas coisas que ocorreram com Paulo conforme ele informa em suas epístolas.

Uma das características de Atos é a apresentação fragmentárias dos fatos. O autor não propõe relatar tudo. Ele relata apenas o suficiente para que seu propósito principal seja alcançado. Ele selecionou eventos que condiziam com o caráter de sua obra e para o alcance dos seus objetivos ou propósitos.

Assim a ida de Paulo à Arábia (Gál 1:17), por exemplo, não é mencionada possivelmente porque não se tratou de uma viagem missionária. O detalhe do rei Aretas quando o apóstolo fugiu de Damasco (II Cor 11:32, 33), não aparece nos Atos possivelmente pelo motivo apologético.

Ademais, Lucas não foi testemunha ocular de todos os fatos ocorridos com Paulo. Ele dependeu em muito da informação do apóstolo, ou de pessoas chegadas a ele. Não devemos supor que Paulo tivesse informado a Lucas de todos os fatos. Ele não era desses que vivem propalando os seus feitos. Quando os relatava, fazia por amor da própria Causa, como credenciais de seu apostolado, por exemplo (II Cor 11:23-33; 12:1-10, 12).

 

(5) Atos contradiz afirmações históricas e doutrinárias de Paulo. Exemplos: o concílio de Jerusalém (Atos 15) em relação às idas de Paulo à Jerusalém segundo a epístola aos Gálatas. O apóstolo parece ignorar o concílio e suas decisões, nas admoestações aos cristãos da Galácia. Aos Coríntios ele afirma a liberdade de se comer carne sacrificada aos ídolos, coisa que o concílio condenou (I Cor 8:4, 8; 10:25-30).

Uma análise cuidadosa do livro de Atos e da epístola aos Gálatas revela que a abordagem ao problema do elemento judaizante por Lucas é de caráter eclesiológico, enquanto que por Paulo é de caráter teológico. A maneira da abordagem é diferente porque os pontos de vista são diferentes. Paulo apela aos Gálatas teologicamente, realçando-lhes o verdadeiro evangelho e a insensatez de se buscar salvação em outra fonte. Preferiu não lhes impor decretos conciliares com peso na decisão diretiva da Igreja. O apóstolo concita os crentes ao amadurecimento na fé e no apego ao plano de Deus por princípio e não por regulamento. Caso insistisse na decisão oficial do concílio, poderia ser mal interpretado e ter, diante das igrejas da região, enfraquecida a sua própria argumentação contra o legalismo (que não deixa de ser um sistema de decretos). Ele insiste na liberdade do Espírito (Gál 2:4; 5:1-6, 16-18. Cf. Filem 8, 9).

Alguns supõem que a epístola foi escrita antes do concílio -- daí o não mencioná-lo. Se a data do concílio é 49/50AD, a época da epístola, segundo estes, seria 48/49. Esta é, por exemplo, a posição de Champlin em seu O Novo Testamento Interpretado. Fundamentam no fato de Paulo mencionar duas idas a Jerusalém, e Atos três idas, comparadas da seguinte forma:

 

Visita

Atos

Gálatas

Observações

Primeira

9:26-30

1:18

 

Segunda

11:29, 30; 12:25

2:1, 2

“revelação” (Atos 11:28?)

Terceira

15:2, 3

 

não referida em Gálatas

 

Neste caso Paulo teria escrito a epístola de Antioquia logo depois de chegar de sua viagem, tendo em vista a atuação dos elementos judaizantes. A repreensão a Pedro (Gál 2:11-14) teria ocorrido antes do concílio e no contexto de Atos 15:1.

A dificuldade desta hipótese tem a ver com os 3+14 anos de Gál 1:18 e 2:1, considerando-se que a conversão de Paulo foi em 34AD. É difícil que a epístola tenha sido escrita antes do concílio. Ficamos com a posição do SDABC que estabelece a visita de Paulo a Jerusalém relatada em 2:1 como sendo a terceira em Atos, isto é, a relacionada com o concílio, e propõe o ano 57AD como a data para Gálatas. Paulo em Corinto teria escrito a epístola ao tempo em que escreveu Romanos, pois o tema da justificação pela fé é predominante em ambas. Neste caso Paulo não menciona aos gálatas sua segunda ida a Jerusalém desde que esta viagem não teve nenhuma relação ao conflito entre ele e seus opositores, conflito ao qual o apóstolo se refere no cap. 2 (ver SDABC, vol. VI, pp. 318-321).

Quanto à questão das carnes sacrificadas aos ídolos, devemos notar que também o contexto de Paulo escrevendo aos Coríntios é diferente daquele do concílio de Jerusalém. Paulo discute com eles a liberdade do crente em Cristo, e revela uma razão mais espiritual para o cristão evitar tal tipo de carne, razão bem mais válida do que a letra de um decreto apostólico, e assim bem mais ao gosto de Paulo em sua ética doutrinária. Paulo conduz sua argumentação de forma condizente com a máxima “todas as coisas são lícitas mas nem tudo convém” (I Cor 10:23). Para ele a força motivadora do comportamento cristão é: “o amor de Cristo nos constrange” (II Cor 5:14).

 

FONTES

 

Em sua pesquisa, Lucas certamente colheu informações diretamente de pessoas ligadas à origem e desenvolvimento do cristianismo. Entre elas Paulo, Barnabé e Marcos em
Antioquia (a tradição coloca Lucas originalmente como membro desta igreja); com toda probabilidade Pedro, em sua visita a Antioquia (Gál 2:11), ou em outro local, mesmo Roma. Maria e Tiago, mãe e irmão de Jesus, devem tê-lo informado dos primeiros eventos relatados no Evangelho, e dos fatos ligados à igreja de Jerusalém (21:17, 18). Diferentes companheiros das viagens de Paulo devem ter suprido as informações quanto aos feitos do apóstolo.

Lucas também deve ter se valido de documentos escritos provavelmente em aramaico, o que explicaria algumas construções que fogem ao estilo apurado do escritor (3:16, por exemplo).

Finalmente, ele mesmo foi testemunha ocular dos fatos narrados nas seções nós.

 

CARACTERÍSTICAS DO LIVRO DE ATOS

 

(1) Distintamente um documento missionário

Atos 1:8 contém a grande comissão dada por Cristo à Igreja. Ela é chave para a própria estrutura do livro e a forma como a narrativa se desenvolve. Pressupõe o seu conteúdo e mensagem (cp. com Luc 24:47):

Jerusalém - caps. 1, 2ss; 5:28; 6:7ss; 7:60

Judéia - cap. 8:1ss

Samaria - cap. 8:1, 4ss

Confins da Terra - caps. 8:26; 9:1ss; 10:1ss; 28.

Abrange os 33 anos iniciais da Igreja.

 

(2) Relato fragmentário

Uma história completa abrangendo 33 anos seria impossível dentro do esquema de Lucas.

Os apóstolos, como um corpo de ação, aparecem apenas no princípio do livro. Trabalhos individuais são mencionados apenas da parte de Pedro e Paulo, e esparsas referências a outros pregadores são feitas quase que de passagem. Nada é dito de como o evangelho chegou a lugares importantes como o Egito (Apolo era de Alexandria), e mesmo Roma.

Uma compensação ao caráter fragmentário são os sumários colocados em intervalos ao longo do relato, mostrando o progresso do evangelho como resultado da atividade cumprida no período precedente. Aparecem em 2:43-47; 3:32-35; 5:12-16; 6:7; 9:31; 12:24; 16:5; 19:20; e 28:31. Observe, por exemplo, que no quinto sumário (9:31) referência é feita aos crentes na Galiléia, sem contudo a narrativa demonstrar como as igrejas foram lá implantadas.

Mesmo na segunda parte do livro, quando Lucas se empenha em relatar os labores de Paulo, a narrativa é desigual, mostrando-se algumas vezes tremendamente condensada, traçando numa sentença movimentos que requereriam semanas para serem cumpridos (18:22; 19:1), enquanto em outros pontos é bem detalhada (o processo da prisão e defesa de Paulo; a viagem para Roma, o naufrágio, etc.). A presença ou ausência de Lucas no cenário dos fatos é importante fator no estabelecimento desta desigualdade.

 

(3) Dois centros principais dominam a narrativa

Jerusalém e Antioquia estão em paralelo às duas figuras principais, Pedro e Paulo, respectivamente os expoentes da 1ª e 2ª metades em que o livro pode ser dividido.

 

(4) Proeminentemente um livro de discursos

Estes podem ser divididos em 4 categorias: evangelístico, com ênfase na ressurreição como centro do kérygma; apologético, o de Estêvão e o de Paulo enquanto presos; deliberativo, o discurso do cap. 15; e hortativo, ou exortativo, como quando Paulo se dirigiu aos anciãos de Éfeso.

Os discursos seguem o caráter fragmentário da narrativa. Lucas expõe os pontos capitais num estilo que é seu e não de quem discursou.

 

(5) Termos usados com determinada frequência sugerem prováveis temas teológicos

Mencionam-se entre estes:

Palavra (de Deus, do Senhor, ou unicamente o termo), 72 vezes

Gentios, 30 vezes

Igreja, 19 vezes

Apóstolo, 28 vezes

Crer, 30 vezes

Batizar, 19 vezes

Testemunho, testemunha, testemunhar, testificar, 34 vezes

Espírito, Espírito Santo, 55 vezes

São frequentes determinados termos como júbilo, alegria, regozijo, que definem o efeito da mensagem no coração dos crentes. Há um sentimento de entusiasmo em toda a narrativa.

 

(6) O livro da atuação soberana do Espírito Santo

Pode-se notar a presença soberana do Espírito Santo na Igreja e através da Igreja. Ele escolhe, chama, dá poder, sustém, preside concílios, define assuntos, proíbe, inspira e arrebata, e conduz de cidade em cidade o avanço do evangelho.

Mais do que isto, o Espírito Santo é o grande dom messiânico e escatológico. Com Ele os últimos dias são chegados.

 

COMENTÁRIO DE ATOS 1 - 7

CAPÍTULO 1

 

Versão básica: Almeida, Edição Revista e Atualizada no Brasil, SBB 1962

 

v. 1 - No grego: “Jesus começou a fazer e ensinar”

A Igreja continua o ministério de Cristo. O que Jesus fez é o começo do Seu ministério que inclui o da Igreja - ver 26:23.

“fazer”, poiéo, o mesmo verbo usado na LXX em referência à criação. Aqui aponta para o kérygma.

“ensinar”, didásko, aponta para o didaché.

“Teófilo” - significa amigo de Deus, ou amado de Deus. Quatro posições:

(1) figura simbólica apontando para toda a comunidade cristã

(2) pseudônimo de uma pessoa de prestígio no tempo de Lucas. Talvez Titus Flavius Clemens

(3) apelido de alguém no desempenho de alguma função importante no governo romano

(4) nome literal, de alguém da alta sociedade, ou mesmo da nobreza romana. No Evangelho de Lucas aparece o título excelentíssimo. Em Atos, sem este título honorífico, pode indicar que Teófilo havia se convertido

 

v. 2 - “intermédio do Espírito Santo”, Cristo ainda detém o Espírito Santo depois da ressurreição. O que o Jesus ressurreto faz na Terra é também por obra da terceira Pessoa da Trindade. Se Ele aqui permanecesse, o Espírito ficaria restringido a Ele (João 16:7).

 

v. 3 - “reino de Deus”, todo o evangelho, toda a mensagem e não só o futuro reino da glória (20:24, 25; 28:31). O reino de Deus envolve o da graça e o da glória.

“quarenta dias” - teria Lucas tomado conhecimento deste detalhe após ter concluído o seu Evangelho?

 

v. 4 - “comendo com eles”, evidência da ressurreição corporal (Luc 24:41-43).

“promessa” - ver Luc 24:49

 

v. 5 - “João”, abertura do ministério terrestre de Jesus é evocado, agora com vistas à abertura do ministério da Igreja.

 

vv. 6, 7 - “tempo”, chronos, tempo considerado como tal, tempo que escoa, que flui, a sucessão contínua dos momentos.

“Israel”, discípulos ainda partilham do conceito messiânico judaico.

“tempos e épocas”, chronous he kairous. “Amplamente falando, chronos expressa a duração de um período, kairos destaca este período como assinalado por determinadas feições; épocas caracterizada por certos eventos.” (W. E. Wine, Expository Dictionary of New Testament Words, p. 333). Chronos tem a ver mais com quantidade, e kairos com qualidade.

“Pai”, cf. 17:26.

 

v. 8 - “testemunhas”, ver Isa 42:10: “Minhas testemunhas... Meu servo”, isto é, o Senhor Jesus, que reúne em Si a experiência passada de Israel e a experiência futura da Igreja (Atos 13:47). Aqui os discípulos são “testemunhas de Jesus”, o equivalente a “testemunhas de Yahweh” no Velho Testamento. Implica na identificação de Jesus com o Deus que age na história de Israel.

“poder”, distinto da pessoa do Espírito Santo, referida em seguida. O Espírito Santo não é mero poder; é um ser pessoal por cujo poder a Igreja deve existir. O verso traduz a missão da Igreja e fundamenta o esboço do livro de Atos.

 

vv. 9-11, o relato da ascensão

Aparentes diferenças com Luc 24:50, 51:

(1) nenhuma referência aos 40 dias

(2) local: Betânia. Em Atos é o monte das Oliveiras

Para Lucas é importante o detalhe dos 40 dias em Atos pois relatará o evento do Pentecoste no cap. 2. Lucas parte do ponto onde parou no Evangelho, pormenorizando por motivo de esclarecimento a Teófilo, e empenho para que ele mais acuradamente retenha os fatos. A região de Betânia envolvia um dos lados do monte das Oliveiras.

A ascensão é um evento escatológico evidenciado pela presença de anjos e nuvem. Esta se fez presente em grandes eventos teofânicos do passado, com destaque para o Sinai. A ascensão foi um evento glorioso (I Tim 3:16), assim será a parousia.

“enquanto subia” - a ascensão foi progressiva e gradual

“esse mesmo Jesus” - Atos desconhece qualquer distinção entre o Jesus da história e o Cristo glorificado. Aquele que subiu é o que voltará, e Aquele que subiu e voltará é o mesmo que viveu entre os homens.

O local da ascensão é o mesmo onde Ele descerá no fim do milênio, e onde a Nova Jerusalém finalmente se firmará.

 

v. 12 - “jornada de um sábado”, 1200 metros

 

v. 13 - “cenáculo”, grande sala na casa de Maria, mão de João Marcos

Lista atual dos apóstolos: a lista é repetida (a 1ª menção está no Evangelho) por duas razões básicas: (1) preparar o leitor para a escolha do substituto de Judas, e (2) afirmar que o grupo que antes fora disperso, volta a se reunir após a ascensão. A Igreja provém não da dispersão mas da reorganização do corpo de Cristo. Há todavia um sentido em que uma dispersão é necessária (ver 8:1), e um sentido em que re-união é prejudicial (ver João 20:19).

v. 14 - “mulheres”, segundo grupo presente

Os Evangelhos fazem menção de algumas mulheres que serviam a Jesus. Lucas não esquece de mencioná-las também em Atos. A mãe de Jesus se fez presente.

“irmãos dEle” - converteram-se após a ressurreição (ver João 7:5 e I Cor 15:7). Tiago, possivelmente, era o mais velho, e tornou-se o líder da igreja em Jerusalém. Os irmãos de Jesus formam um terceiro grupo.

Quem foram os irmãos de Jesus? Três posições:

(1) Epifânio, no II século, época em que o conceito da virgindade perpétua de Maria foi estabelecido, sustentava que eram filhos de José mas não de Maria. José, ao se casar com a mãe de Jesus, era viúvo.

(2) Helvídeo, no IV século, cria que eram filhos legítimos de José e Maria.

(3) São Jerônimo, outro defensor do celibato, afirmava que eram primos de Jesus. Todavia o Novo Testamento registra o termo anépsios para primo (Col 4:10).

 

v. 15 - “120”, 12 é o número básico da Igreja e de Israel; 10 é um número que aponta para plenitude.

Temos aqui as primícias que incorporam o todo: o Espírito Santo caindo sobre eles no Pentecoste é evidência de estar sendo derramado sobre toda a carne. O número da igreja final é 144.000 (Apoc 7 e 14), o equivalem a 12X12X1000.

“assembléia”, gr. óchlos onomáton epì tó autó, lit. multidão de nomes no mesmo. Realça a idéia de unanimidade (v. 14): em um e no mesmo lugar, isto é, o cenáculo (v. 13).

 

v. 16 - “Judas”, o traidor por excelência, o guia que levou outros a prenderem a Jesus.

“Davi” - os salmos reais sobre Davi são considerados messiânicos. Os inimigos de Davi se tornam um tipo daqueles que se levantam contra o Messias.

 

v. 17 - “ministério”, o apostolado

 

vv. 18, 19 são parentéticos, e contém uma informação dada não por Pedro aos 120, mas por Lucas a Teófilo e demais leitores. Os 120 sabiam do ocorrido.

Com o preço da iniquidade (30 moedas de prata) Judas comprou um campo, Aceldama, campo de sangue (Mat 27:6-8), transformado em cemitério para forasteiros ou estrangeiros, teologicamente pessoas que não participam do concerto (Efés 2:12). Judas foi o primeiro a ser sepultado ali, indo para o lugar que lhe era próprio (Atos 1:25). Segundo a tradição, este lugar ficava ao sul de Jerusalém, ao oriente do vale de Hinnon, local onde na época de maior apostasia (tempo de Acaz e Manassés) Israel oferecia seus filhos em sacrifício a Baal e Moloch. Deus visitaria este lugar com punição (Jer 7:31-34). Passou a ser um tipo do pecado e sua merecida punição. Corpos de animais e criminosos eram ali queimados. Corresponde à Geena no Novo Testamento, símbolo da eterna punição (Isa 66:24).

“campo de sangue” - em Atos é devido ao sangue de Judas, mas em Mateus é devido ao sangue de Cristo. Judas pagou com o próprio sangue o ter traído o sangue de Jesus. Conforme Mateus, Judas se enforcou; conforme Atos, arrebentou-se. As duas coisas ocorreram.

 

v. 20 - referência a Sal 109:8 e 69:25. No contexto de Davi são os seus inimigos. Mas há um sentido transcendente, aplicável ao Messias. Pedro adapta os textos: na LXX está no plural, “morada deles”; o apóstolo transpõe a expressão para o singular para aplicar o evento a Judas.

Esta é a primeira referência do Velho Testamento feito pela Igreja, vendo em Jesus o cumprimento do que foi declarado. Aqui o Espírito Santo ainda não havia sido derramado. Possivelmente Pedro está repetindo passagens anteriormente citadas por Jesus após a ressurreição (ver Luc 24:27, 44-46).

 

vv. 21, 22 - “é necessário”, o nº 12 deve ser mantido

Por que Judas devia ser substituído? Por que Tiago, irmão de João, não foi substituído? Judas perdeu, por apostasia, o lugar entre os 12; Tiago foi martirizado, permanecendo fiel ao apostolado até o fim. Sua posição apostólica foi mantida. Isto conspira contra a idéia da sucessão apostólica, sustentada pela Igreja Católica. O primado de Pedro não resiste aos fatos registrados no livro de Atos.

Condições para o apostolado:

(1) Ter acompanhado o ministério de Jesus desde os dias de João Batista. Deveria, portanto, ser um ex-discípulo de João.

(2) Ser conhecedor das obras e ensinos de Jesus

(3) Ser testemunha da ressurreição e ascensão

Os irmãos de Jesus não preenchiam todas estas condições. E quanto a Paulo?

CAPÍTULO 2

 

v. 1 - “Pentecostes”, termo oriundo do grego, que significa quinquagésimo

O termo não aparece no Velho Testamento, a não ser na parte apócrifa, em Tobias 2:1, datado mais ou menos de 200AC, e II Macabeus 12:32, datado mais ou menos de 120AC. Estes dois livros foram originalmente escritos em grego.

Esta festa ocorria 50 dias depois da apresentação do molho movido, conhecido também como primícias (pois nesse dia se apresentavam os primeiros grãos da colheita da cevada), segundo Lev 23:10-12, 15, 16. O v. 12 registra o “dia imediato ao sábado” como ponto de partida para contagem do período pelo método inclusivo.

O que a palavra sábado neste contexto significava? Havia duas posições:

(1) a dos fariseus, que admitiam ser um sábado cerimonial, precisamente o 1º dia da festa dos asmos, isto é, 15 de Nisã. Portanto, o dia do molho movido (as primícias da cevada) caia em 16 de Nisã. Base bíblica alegada: Lev 23:7, 12 comparado com Jos 5:10-12. Assim, para os fariseus esse era um dia mensal fixo, sempre 16 de Nisã, enquanto o dia semanal variava ano após ano.

(2) a dos saduceus, que entendiam tratar-se do sábado semanal que se situava no período dos sete dias da festa dos asmos (Lev 23:6). Base bíblica alegada: Lev 23:16. Para eles, portanto, esse era um dia semanal fixo, variando o dia mensal ano após ano. O dia do molho movido caía sempre num domingo, tanto quanto o Pentecoste.

Quando Jesus morreu, o templo e seu ritual estavam nas mãos de saduceus e Seu sistema de interpretação era adotado. Naquele ano, todavia, o método dos saduceus coincidiu com o dos fariseus, porquanto 15 de Nisã foi um sábado tanto cerimonial como semanal. Quando isto acontecia o dia era chamado sábado grande (João 19:31). O dia do molho movido naquele ano caiu em 16 de Nisã (método dos fariseus), e num domingo (método dos saduceus). A exemplo do dia do molho movido, o Pentecoste, naquele ano, caiu num domingo, em 5 de Sivã (ver cálculo cronológico do Pentecostes de Atos 2, ano 31AD, na página seguinte).

A partir de 70AD, o método dos fariseus foi adotado para a contagem do Pentecoste.

Outros nomes para a festa:

(1) festa das semanas - Êx 34:22; Deut 16:10

(2) festa da sega dos primeiros frutos - Êx 23:16 (referência ao trigo)

(3) festa das primícias - Êx 34:22; Núm 28:26

Nesse dia as primícias do trigo eram apresentadas na forma de pães.

 

Nisã (mês 1)

Mês Sem

Zive (mês 2)

Mês Sem

Sivã (mês 3)

Mês Sem

Festa

15

Sáb

01

Seg

01

Qua

Nisã 15-21: Asmos

16

Dom

02

Ter

02

Qua

Nisã 15: sábado cerimon.

17

Seg

03

Qua

03

Sex

Nisã 16: molho movido

18

Ter

04

Qui

04

Sáb

Nisã 21: sábado cerimon.

19

Qua

05

Sex

05

Dom

Sivã 05: Pentecoste

20

Qui

06

Sáb

 

 

 

21

Sex

07

Dom

 

 

 

22

Sáb

08

Seg

 

 

 

23

Dom

09

Ter

 

 

 

24

Seg

10

Qua

 

 

 

25

Ter

11

Qui

 

 

 

26

Qua

12

Sex

 

 

 

27

Qui

13

Sáb

 

 

 

28

Sex

14

Dom

 

 

 

29

Sáb

15

Seg

 

 

 

30

Dom

16

Ter

 

 

 

 

 

17

Qua

 

 

 

 

 

18

Qui

 

 

 

 

 

19

Sex

 

 

 

 

 

20

Sáb

 

 

 

 

 

21

Dom

 

 

 

 

 

22

Seg

 

 

 

 

 

23

Ter

 

 

 

 

 

24

Qua

 

 

 

 

 

25

Qui

 

 

 

 

 

26

Sex

 

 

 

 

 

27

Sáb

 

 

 

 

 

28

Dom

 

 

 

 

 

29

Seg

 

 

 

 

 

30

Ter

 

 

 

Total de dias a partir de 16 de Nisã até 05 de Sivã: 50

(Nisã, 15 + Zive, 30 + Sivã, 5)

 

O Pentecoste era uma das 3 festas obrigatórias para que judeus de todas as partes se fizessem presentes em Jerusalém. As outras duas: Páscoa e Tabernáculos. Na época da páscoa ocorria a colheita do cereal, sendo a cevada o primeiro grão a ser colhido. Na época do Pentecoste a colheita do cereal estava praticamente concluída, com a colheita do trigo. Na época dos Tabernáculos, os frutos estavam praticamente colhidos. As duas primeiras festas ocorriam na primavera, enquanto a última ocorria no outono.

Na tradição rabínica, o Pentecoste comemorava a doação da lei no Sinai. Era feita uma interpretação cronológica de Êx 19 para se chegar a esta conclusão.

 

v. 2 - “som”, experiência audível

“vento impetuoso” - gr. pnoês (vento), da mesma raiz de pneûma (Espírito). Cf. Ez 37:9-14; João 3:8. A idéia de sopro se faz presente.

“impetuoso” - indica a dinâmica do Espírito Santo que deverá ser observada em todo o livro de Atos.

“encheu”, eplérosen, lembra-nos Isa 6:4, “a casa se encheu”

“casa”, oîkos, pode ser casa ou templo (Isa 6:4 na LXX) - Atos 7:47. Possivelmente estavam em alguma dependência do templo.

 

v. 3 - “apareceram”, ófthesan, foram vistas - experiência visual

“línguas como de fogo” - lembra a sarça ardente. João Batista profetizara: “Espirito Santo e fogo” (Mat 3:11)

 

v. 4 - “cheios”, eplésthesan, de plétho ou pímplemi, estar sob a completa influência de, sinônimo de pleróo, encher, empregado no verso 2. Aponta para a plenitude (pléroma) do Espírito. Isto não significa que cada indivíduo na igreja possui a plenitude do Espírito Santo, pois se assim fosse, cada indivíduo possuiria todos os dons espirituais, o que Paulo contraria em I Cor 12. Significa que a Igreja possui, como um todo, essa plenitude. Assim, todos os dons do Espírito, segundo Paulo, se manifestam na coletividade da Igreja. O único que possuiu a plenitude absoluta do Espírito foi Jesus (João 3:34). E Jesus incorpora a realidade de toda a Igreja. Possuindo a Igreja a plenitude do Espírito Santo, fica evidenciado que a era messiânica chegou como a era do Espírito (vv. 17ss). Este já operava nos tempos do Velho Testamento, mas não na plenitude de agora (ver E. G. White, Atos dos Apóstolos, p. 37). A Igreja plena do Espírito é, na realidade, a própria plenitude de Deus (Efés 1:23; 3:19).

O Espírito enchendo a casa (templo) e os discípulos, pode ser uma prévia indicação de que o corpo de discípulos (Igreja) é, a partir de agora, o verdadeiro templo de Deus na Terra.

 

Aplicações homiléticas:

Plétho aparece 24 vezes no Novo Testamento, 21 nos escritos de Lucas; com referência ao Espírito Santo, implica a idéia de capacitação e dotação. Pleróo, no contexto da operação do Espírito, implica a idéia de identificação e qualificação de vida -- pléres, “cheio”, da raiz de pleróo, indica, como adjetivo, qualidade de vida (Atos 6:8), em contraste com plestheís, “cheio” ou “enchido”, particípio aoristo de plétho, aponta para uma eventual capacitação (4:8).

Pleróo tem também o sentido de suprir, por exemplo, uma deficiência, como em Fil 4:18, 19. Significaria “encher algo vazio”. Em Atos 1:2, seria o espaço vazio da casa. Quando é dito que uma pessoa é cheia (pléres) do Espírito, significa que ela está espiritualmente esvaziada de si mesma; mas apenas o esvaziamento é, não somente insuficiente, mas, antes de tudo, perigoso (Mat 12:43-45).

Efés 5:18 registra: “não vos embriagueis com vinho, mas enchei-vos (pleroûsthe) do Espírito.” Há sempre o perigo de que o vinho de Babilônia tome o lugar do Espírito na vida do cristão (Apoc 17:2; 18:3).

 

“falar em outras línguas” - o fenômeno da glossolalia. Paulo classifica “línguas” como um dos dons do Espírito (I Cor 12:28).

A linguagem destas línguas era “profética” (Atos dos Apóstolos, p. 38) num sentido especial. Os apóstolos e demais discípulos naquele dia começaram a louvar a Deus com expressões estrangeiras, familiares aos judeus da Diáspora que estavam em Jerusalém. Neste caso era dispensável a interpretação dos termos. Num contexto diferente, a manifestação do dom de línguas em Corinto exigia a manifestação de outro dom, interpretação de línguas, para a sua validade (I Cor 14). Alguns membros da igreja de Corinto estavam pensando que eram superiores a seus irmãos por falarem outras línguas. Mas Paulo, sem dúvida com base no evento do Pentecoste e como parte de ampla interpretação teológica do dom de línguas, afirmou-lhes que este dom era um sinal para incrédulos e não para crentes (I Cor 14:22). No Pentecoste, a manifestação de línguas foi um sinal para os judeus descrentes de que Jesus Cristo era o verdadeiro Messias, e que seriam rejeitados aqueles que O rejeitassem.

Foram expressões extáticas as línguas faladas pelos discípulos no Pentecoste? Provavelmente, considerando que as expressões estavam parcial ou totalmente além do controle ou do consciente do proferidor: “segundo o Espírito lhes concedia que falassem.” Mas não eram extáticas no sentido pentecostalista de nossos dias.

 

v. 5 - “judeus”, referência feita em especial aos da Dispersão

Isto significa que o dom de línguas não era apenas para fins missionários, já que judeus de qualquer parte conservavam, pelo menos relativamente, o conhecimento do hebraico (ou aramaico) (cf. Atos 21:40); provavelmente o grego ser-lhes-ia também um idioma familiar. Línguas aqui objetivavam em primeiro lugar evidenciar que os últimos dias haviam chegado - vv. 16-19, 43. Eram uma evidência da chegada da era do Espírito, a era messiânica. Eram igualmente um prenúncio de que o evangelho seria estendido a todos os povos da Terra, conforme o imperativo de 1:8 (ver Atos dos Apóstolos, pp. 39, 40).

O mesmo fenômeno se repetiu em outras duas ocasiões:

(1) abertura da pregação aos gentios - 10:44-46

(2) com discípulos batizados apenas com o batismo de João - 19:5, 6. A fé cristã e o batismo cristão não apenas deveriam ser vindicados. O ponto é que os referidos discípulos ainda não desfrutavam a era messiânica. Haviam parado em João Batista, profeta da linhagem dos profetas da antiga dispensação.

Estas duas posteriores manifestações do dom atestam a razão primária da presença de línguas no Pentecoste, já que o aspecto missionário não ocorre nestes dois eventos.

“todas as nações debaixo do céu”. Uma tradição rabínica afirmava que no Sinai uma voz falou e todo o povo ouviu (Êx 20:18). A voz, ao ser emitida, dividiu-se em sete, e então em 70 línguas, segundo o número de nações alistadas em Gên 10 em conexão com Deut 32:8, “segundo o número dos filhos de Israel”, isto é, 70 almas que desceram ao Egito com Jacó. Lucas se vale desta interpretação e afirma que neste Pentecoste “pessoas de todos os povos debaixo do céu” estavam presentes para ouvir a proclamação do novo Moisés, o Messias. “O paralelo na mente de Lucas é claro” (F. F. Bruce, The Book of the Acts, p. 60). Devemos observar que Lucas é o único evangelista que narra a missão dos setenta, um evidente prenúncio do evangelho aos gentios (Luc 10:1, 2), já que a missão dos 12 era apenas para Israel (Mat 10:5, 6).

Literalmente o mundo inteiro se fez representar em Jerusalém naquele Pentecoste; na tradição rabínica Jerusalém incorporava o mundo. Estavam presentes judeus dos 3 continentes de então: Ásia, África e Europa, ou dos 4 pontos cardeais: norte, sul, oriente e ocidente.

Muitos destes judeus haviam estado anteriormente em Jerusalém na festa dos Tabernáculos e na Páscoa; em ambas tinham tido contato com Jesus: nos Tabernáculos ouvindo os discursos dEle acerca de Sua missão salvífica (João 7) e na Páscoa presenciando Sua crucifixão. Na verdade, a colheita do Pentecoste havia sido semeada desde a última festa dos Tabernáculos e sido regada com o sangue da cruz. Em Jesus a festa da Páscoa tornou-se central entre as 3:

Ano 30AD - Tabernáculos (João 7)

Ano 31AD - Páscoa, quando se deu a crucifixão

Ano 31AD - Pentecoste, as primícias da Igreja apresentadas por Jesus a Deus na forma de pão - I Cor 10:17

 

v. 6 - “aquela voz”, os louvores a Deus em diferentes línguas e dialetos; as linguagens locais daqueles peregrinos em Jerusalém (v. 8).

 

v. 7 -”galileus”, sotaque ou acento, mostrava-os como da Galiléia.

 

v. 8 - “cada um em nossa língua materna”, pelo dom de línguas eles ficaram aptos a falar bem tanto sua própria língua como as estrangeiras.

 

vv. 9, 10 - “partos, medos, elamitas, os naturais da Mesopotâmia”, hebreus vivendo no oriente da Judéia, sendo muitos da Dispersão, outros remanescentes das 10 tribos. O plano divino era reunir em um só corpo (a Igreja), através do evangelho, “os filhos de Deus que andam espalhados” (João 11:52). O prenúncio deste fato era agora observado.

“Judéia”, provavelmente um erro escribal, ou então Judéia no mais amplo sentido, talvez na extensão territorial dos tempos de Davi e Salomão: “desde a fronteira do Egito até o Eufrates.” Isto explicaria a ausência da Síria na lista.

“Capadócia, Ponto, Ásia, Frígia, Panfília”, o próprio livro de Atos nos fala das colônias de judeus nestas regiões (caps. 13-19). O grego era a língua mais falada ali.

 

v. 11 - “Egito, Líbia, Cirene”, outras regiões da Diáspora. No tempo de Jeremias muitos judeus fugiram para o Egito. Filo (38AD) fala de 1 milhão de judeus no Egito. Língua falada: o grego.

“romanos”, única alusão à Europa na lista. Seriam estes que deram origem à igreja de Roma? Judeus haviam sido levados para Roma desde o tempo de Pompeu.

 

v. 12 - “prosélitos”, isto é, gentios que assumiam a responsabilidade de guardar a Torah. A conversão ao judaísmo exigia do gentio o cumprimento de 3 passos iniciais: (1) circuncisão; (2) auto-batismo purificador na presença de testemunha; e (3) oferecimento de um sacrifício.

A circuncisão era tida como mais importante que a guarda do sábado (João 7:22, 23). Sem ela, nenhuma outra observância legal seria de valor. “Rabi José diz: ‘grande é a circuncisão desde que ela sobrepuja o rigoroso sábado.’” (Mishnah Nedarim 3:11)

Em vista do constrangimento que a circuncisão naturalmente significava, havia mais prosélitos do sexo feminino do que masculino. Homens, que não se deixavam circuncidar e admiravam e cumpriam outra especificações do judaísmo, eram chamados “tementes a Deus” (Atos 10:2). Eram, contudo, considerados legalmente gentios, como se depreende da acusação que judeus-cristãos levantaram contra Pedro em Atos 11:3.

“Arábia”, estreitava-se do Mar Vermelho ao Eufrates, ao oriente da Síria e Palestina. Capital: Petra. Este reino atingiu o auge sob o domínio de Aretas IV (9AC-40AD). A filha de Aretas foi a primeira esposa de Herodes Antipas, repudiada por este em troca de Herodias. Assim havia uma ligação desta região com a Palestina. Lá deveria, portanto, existir muitos judeus.

“grandezas de Deus”, o conteúdo do louvor. Normalmente este louvor era levantado em vários idiomas pelos visitantes na festa, indicando que o domínio de Deus seria universal quando o Messias reinasse. Mas o Messias já havia vindo, e agora um grupo de galileus, pelo poder do Espírito, davam este louvor, coisa que não poderiam fazer por si mesmos.

 

v.13 - “embriagados”, lit. “cheios de vinho doce e novo”. Vinho novo é um símbolo das bênçãos do reino (Luc 5:37-39). Mas relembre a recomendação de Efés 5:18, em consonância com o festival de Baco.

gleukos, vinho doce e novo. Esta palavra pode indicar tanto o vinho fermentado como não fermentado (suco de uva). Mais dois termos para vinho no grego: oinos, vinho fermentado, e trucs, suco da fruta, vinho não fermentado.

 

vv. 14-36 - o discurso de Pedro dividido em duas partes:

(1) explicação do fenômeno - vv. 14-21

(2) um esboço do kérygma - vv. 22-36

 

v,. 14 - “advertiu-os”, o mesmo verbo do v. 4. Portanto pode haver aqui a intenção de Lucas indicar a inspiração divina do discurso.

 

v. 15 - “terceira hora do dia”, 9 horas da manhã.

 

v. 16 - Joel, um dos profetas menores que anunciaram o dia do Senhor. A citação é do cap. 2:28-32.

 

v. 17 - “últimos dias”, corresponde a “depois” no texto original. Com Cristo os últimos dias começaram (I Ped 1:20)

O cristão é um cidadão de dois reinos, ou dois mundos. Na morte, ressurreição e ascensão de Jesus, há uma antecipação da era porvir, com o desfruto, por parte da Igreja, das bênçãos do Reino, as quais alcançarão a plenitude a partir da segunda vinda (parousia). É o e o não ainda tão significativamente exposto no Novo Testamento, principalmente em Paulo. As bênçãos da era porvir são pré-desfrutadas pela Igreja através da presença do Espírito com ela e nela. Paulo diz que temos já as primícias (aparché, Rom 12:23) do Espírito como garantia ou penhor (arrabon, II Cor 1:22; 5:5; Efés 1:14) de que desfrutaremos tudo a partir da consumação escatológica (Cf. Rom 8:32).

“toda a carne”, a era messiânica é a era do Espírito em sua plenitude. Aqui novamente um prenúncio do evangelho aos gentios. O Espírito é derramado sobre 120 cristãos como o começo do cumprimento da profecia (primícias iniciais da Igreja) que deverá alcançar seu clímax com a chuva serôdia a ser derramada sobre 144.000 na consumação (primícias finais da Igreja, Apoc 14:4). Memorize a linguagem dos números:

12X10 = plenitude inicial da Igreja, 120

07X10 = plenitude de línguas e povos, 70

12X12X1000 = plenitude final da Igreja, 144.000

As palavras de Joel são reminescentes das de Moisés em Núm 11:29.

vv. 19, 20 - “prodígios, sinais... sol em trevas, etc.”, recentemente ocorridos com Jesus, principalmente nos eventos que marcaram Sua morte (14 de Nisã de 31AD, lua cheia), v. 22. O cumprimento desta parte ocorre também no ministério da Igreja, v. 43.

 

v. 21 - “invocar o nome do Senhor”, ou Yahweh no Velho Testamento. No Novo a aplicação é feita ao nome de Jesus, v. 38 (cf. 22:16).

 

vv. 22-36 - a proclamação apostólica. O kérygma aparece dividido em 4 partes:

(1) anúncio que a era porvir (a era do cumprimento) chegou

(2) um relato do ministério, morte e ressurreição de Jesus

(3) citações de textos comprobatórios do Velho Testamento

(4) um chamado ao arrependimento

 

v. 22 - “milagres, prodígios, sinais”, do ministério de Jesus, sinais do Reino, sinais dos “poderes do mundo vindouro”, Luc 11:20; Heb 6:5; 2:3, 4.

 

v. 23 - “desígnio e presciência de Deus”, a morte de Jesus é vista como uma providência divina. O aspecto expiatório da morte de Jesus será mais tarde plenamente anunciado e proclamado (Atos 20:28). Todavia, a proclamação aqui implica no cumprimento do plano salvífico de Deus, a morte de Jesus. Previsão disto já fora feita pelos profetas (Luc 24:25, 46; Atos 17:3; 26:23).

Este fato, porém, não ameniza a culpa daqueles que O entregaram à morte.

 

v. 24 - Deus reverteu o ato de matarem Seu Filho, ressuscitando-O dentre os mortos.

“era impossível que a morte o retivesse”, (ver Heb 13:20). A morte de Jesus colocou um fim ao poder da morte. Sua ressurreição é o primeiro fruto do triunfo de Sua cruz sobre a morte.

 

vv. 25-28 - a profecia de Davi (Sal 16:8-11)

Tal assombrosa declaração (sobre a ressurreição de Jesus) precisava ser secundada pelo testemunho do Velho Testamento. A exaltação de Jesus toma lugar em direto cumprimento das promessas de Deus a Davi (Atos 13:34, cp. com Isa 55:3, parte da exaltação do Servo).

 

vv. 29-32 - Pedro demonstra que as palavras de Davi não poderiam ter se cumprido com este grande patriarca. Mas o próprio Davi recebera a promessa de perenidade do trono através do seu Filho (Sal 132:11).

 

vv. 32, 33 - “somos testemunhas”, isto a multidão não pôde ver, a saber, a ressurreição de Jesus, mas o fenômeno do dia do Pentecoste puderam ver e ouvir: “derramou isto que vedes e ouvis”. A manifestação das línguas foi uma experiência audível e visível.

 

vv. 34-36 - a única explicação para o fenômeno: a ressurreição e glorificação de Jesus.

 

v. 36 - “Deus O fez Senhor e Cristo”, não quer dizer que Ele Se tornou Senhor e Cristo apenas na ressurreição, mas a ressurreição é uma demonstração de Sua messianidade e senhorio (Rom 1:4; Fil 2:6ss).

O senhorio de Jesus é ressaltado no livro de Atos (ver 10:36ss) e indiscutivelmente aponta para Sua divindade, embora aqui a idéia esteja apenas implícita.

 

v. 37 - “compungiu-se-lhes o coração”, que culpa poderia haver maior que aquela proveniente de terem crucificado o Messias e Senhor? “Que faremos?” “Existe ainda alguma esperança?”

 

v. 38 - “arrependei-vos”, principalmente do ato de terem previamente rejeitado o Messias.

“batizado”, algo já anunciado por João antes, tanto o arrependimento como batismo. Os judeus em geral, todavia, rejeitaram o batismo de João. Esta é uma segunda oportunidade de fazerem o que deveriam já ter feito: se tivessem aceitado a mensagem de João teriam aceitado a Jesus.

O batismo cristão adiciona dois novos elementos:

(1) em nome de Jesus

(2) recepção do Espírito, cumprindo o que o próprio Batista afirmara que o Messias faria

“Considerado em relação ao batismo de João, ele [o batismo cristão] representa a realização e cumprimento da esperança de Israel.” (G. W. H. Lampe, The Seal of the Spirit, p. 33).

“em nome de Jesus” não contradiz Mat 28:18, mas se aplica à invocação do nome de Jesus (Senhor) pelo batizando (Atos 22:16).

“recepção do Espírito Santo”, cumprindo o que João havia profetizado: o Messias batizará com Espírito e fogo. Principalmente em Paulo, a doação do Espírito é o penhor de Deus de que somos filhos de Deus (Rom 8:9, 14, 23). Como já visto, a presença do Espírito em nós é a certeza de que todas as bênçãos da era messiânica serão nossas.

 

v. 39 - “promessa”, para os que estão perto e os que estão longe; mais uma vez a amplitude da pregação do evangelho é prenunciada. Duas passagens do Velho Testamento são aqui evocadas: Isa 57:19; Joel 2:32.

 

v. 40 - “salvai-vos desta geração perversa”, Joel havia falado do remanescente que desfrutaria as bênçãos.

“geração perversa”, é a que rejeita a Jesus (ver Mar 8:12; Mat 11:16; 12:41, 42; 23:36; 24:34; 17:17; 12:39; Luc 17:25; Mar 8:38; Fil 2:15; Luc 11:29). Envolve a geração incrédula do tempo de Jesus e dos apóstolos, e mais que isto. A nova comunidade de crentes é uma continuação do fiel remanescente do antigo Israel. Enquanto os que aceitam são filhos dos profetas e fiéis do passado (Atos 3:25), os que rejeitam são filhos dos rebeldes do passado, dos que mataram os profetas ( Mat 23:31).

 

v. 41 - “3 mil batizados”, a colheita começara. As primícias haviam sido apresentadas 50 dias antes. A colheita prosseguiu (v. 47; 4:4; 6:7).

 

v. 42 - a nova comunidade havia nascido. “Partir o pão”, pode se referir à ceia do Senhor, ou o servir de alguma refeição desfrutada pelos crentes.

 

vv. 43-47, sumário: “prodígios e sinais”, cumprimento da profecia de Joel. Atos 3 reporta um deles. Eles são sinais da mesma espécie dos do ministério de Jesus. Um senso de unidade e fraternidade centralizadas no Messias tornou a comunidade inicial de crentes a Igreja modelar, caracterizada pela generosidade, solidariedade, e outros traços do caráter de Cristo.

 

CAPÍTULO 3

 

v. 1 - “oração da hora nona”, 15 horas, sacrifício da tarde, o horário da morte de Jesus.

 

v. 2 - “porta chamada Formosa”, muito provavelmente a que dava passagem do pátio dos gentios para o pátio das mulheres, conhecida como portal Nicanor. Tratava-se de um portal feito de bronze coríntio, ricamente trabalhado e de alto valor, segundo Josefus.

 

v. 6 - “anda”, imperativo, consequência do indicativo “dou”. Aqui a relação destes dois modos verbais. Os milagres são na realidade ilustrações de como Deus opera a salvação do pecador.

 

v. 8 - “saltando”, um tanto constrangedor para alguns tradicionais conceitos de reverência.

v. 10 - “admiração e assombro”, era um sinal de que a era messiânica chegara (2:23) - ver Isa 35:6.

 

v. 11 - “para junto deles”, cf 2:6, “quando se fez ouvir aquela voz afluiu a multidão perplexa.” Assim o dom de línguas no cap. 2 está para a cura no cap. 3 , no escopo da grande comissão.

 

vv. 12-16, atenção é chamada a Jesus como o verdadeiro autor do milagre.

“glorificou”, por ênfase, antes de mencionar a atitude humana em condenar e matar o Messias. Novamente Deus reverte o que os homens fizeram. Realce é dado a este fato em seguida, quando explícita declaração da ressurreição é feita.

“servo”, relacionado com o Servo sofredor de Isaías.

“Pilatos”, insistiu em soltá-lO (motivo apologético?); possível prenúncio de que os gentios estariam mais dispostos a reconhecer a Jesus.

“santo e justo”, extraídos de Sal 16:10 e Isa 53:11, respectivamente.

“homicida - Barrabás, nome que significa filho do pai. Cf. João 8:44, onde o diabo é considerado homicida desde o princípio.

“autor”, archegós, aqui e em 5:31; também em Heb 2:10 e 12:2. Inclui a idéia de princípio (arché), ou causa eficiente. Implica na divindade de Cristo, pois só Deus é autor da vida. As palavras de Pedro estabelecem o devido contraste entre homicida e autor da vida.

“somos testemunhas”, da ressurreição, que não foi vista por todos, mas o homem curado está aí diante de todos: “vedes e reconheceis”.

“fé que vem por meio de Jesus”, Jesus é o autor (archegós) da fé (Heb 12:2). A fé é dom de Deus.

“nome”, ênfase no nome terreno do Messias em virtude do exposto em 2:21, 38; ver também 4:10, 12.

 

v. 17 - “ignorância”, atenuante para o ato de matarem o Messias. Jesus na cruz orou: “Perdoa-lhe porque não sabem o que fazem” (cp. I Cor 2:8, e a própria atitude de Saulo, I Tim 1:13). Por esta razão o evangelho lhes é levado agora. Sua decisão marcará em definitivo seu relacionamento ao que Deus operou. “Deus não leva em conta os tempos da ignorância” (Atos 17:30).

 

v. 18 - Deus cumpriu o que anunciara pelos profetas. Aqui o endosso das Escrituras.

 

vv. 19-21 - o apelo:

v. 19 - chamado ao arrependimento

v. 20 - “refrigério”, LXX Êx 8:15: alívio, descanso, folga, trégua. Talvez a idéia de julgamento esteja aqui envolvida; ou da vinda do Espírito; ou da libertação do pecado, isto é, o novo êxodo. O texto é aplicado pelo Espírito de Profecia à chuva serôdia.

“envie o Cristo”, o Cristo será novamente enviado para cumprir o referido refrigério. A mensagem de Pedro aqui alude à segunda vinda. Mas os ouvintes devem se relacionar corretamente com a primeira vez em que o Messias esteve com os homens, para que a segunda vez seja para eles o refrigério.

“receba”, déchomai, tem o sentido, neste contexto, de receber em e reter. O Céu não somente recebeu mas também conterá Jesus até o tempo próprio determinado por Deus o Pai (Atos 1:7). Inegável alusão à volta de Jesus.

“até os tempos da restauração de todas as coisas”, tudo o que foi perdido pelo pecado será recuperado. Todas as coisas estão sendo colocadas sob os pés do Messias.

“pelos profetas da antiguidade”, isto é, dos tempos do Velho Testamento.

 

vv. 22, 23 - “profeta semelhante a mim”, Jesus é o 2º Moisés

“a Ele ouvireis”, cf. “ouvi-O”, da transfiguração.

A Profecia de Moisés está em Deut 18:15. A idéia é que como os que rejeitaram ouvir a Moisés foram rejeitados por Deus, igualmente aqueles que rejeitarem o Messias serão definitivamente rejeitados.

Nem todos os círculos judaicos aceitavam a profecia quanto ao profeta semelhante a Moisés como aplicável ao Messias. O conceito messiânico sustentado na Judéia não ligava esta profecia ao Messias. Os de Galiléia sim, a exemplo dos samaritanos.

 

v..24 - “todos os profetas a começar com Samuel”, nenhuma profecia messiânica explícita, da autoria de Samuel, existe. Mas foi ele quem ungiu a Davi e falou do estabelecimento do seu reino (I Sam 13:14; 15:28; 16:13; 28:17).

 

v. 25 - “filhos dos profetas”, linhagem dos remanescentes e herdeiros das promessas feitas aos profetas (Apoc 11:18). Devem ser vistos em contraste com os “filhos” daqueles que matam os profetas, e que seguem o caminho dos “pais”, crucificando o Profeta dos profetas e recrucificando-O na pessoa de Seus discípulos, especificamente no caso de Estêvão, último profeta à casa de Israel (Mat 23:29-37; Atos 7:51-52). A inimizade contra Deus e Seu Ungido (Cristo) alcançará seu ponto culminante no combate ao remanescente final, os 144.000 (Apoc 17:6; 18:24).

“e da aliança com Abraão”, prioridade dos judeus, mas o evangelho será estendido a todas as nações para cumprimento da promessa feita ao patriarca: “em ti todas as famílias da Terra serão benditas.”

 

v. 26 - “ressuscitado”, melhor tradução seria suscitado, porque aqui, à luz do v. 22, o ponto em questão não é a ressurreição de Cristo mas o fato de ter Deus suscitado entre eles o profeta semelhante a Moisés, Cristo. Como Deus levantou um líder no passado, Moisés, assim Ele o faz agora nos últimos dias. A ressurreição de Cristo está envolvida mas não exaure todo o sentido do que Pedro está afirmando. O verbo aqui é anístemi, a exemplo do v. 22. No v. 15 foi usado egeíro com referência ao evento da ressurreição.

 

CAPÍTULO 4

 

V. 1 - “sacerdotes”, não os sacerdotes comuns, mas os chefes sacerdotais. Os comuns possuíam pouca influência e parece não terem se oposto à pregação cristã. Vários deles aceitaram a fé (6:7).

Compunham a casta sacerdotal da época:

(1) o sumo-sacerdote, a expressão máxima entre os chefes sacerdotais. Em 4:1 aparece “sacerdotes” provavelmente porque mesmo os sumo-sacerdotes que já haviam sido destituídos, ainda exerciam influência no Sinédrio, e nos negócios do templo. No tempo de Jesus e dos apóstolos (desde Herodes o Grande até 66AD) o sumo-sacerdote não era vitalício, tampouco a sucessão sacerdotal era de pai para filho. Ele poderia ser substituído a qualquer momento, a critério da autoridade governamental romana. Os sacerdotes, portanto, esforçavam-se ao máximo para corresponder à expectativa da política imperante, e possuírem sempre a simpatia dos governantes (cf. João 11:49ss).

(2) o capitão do templo, a pessoa mais importante da classe sacerdotal depois do sumo-sacerdote. Ele comandava a guarda do templo, composta de levitas que tinham a custódia do mesmo. Era membro, em geral, da família do sacerdote vigente. Era responsável pela ordem no templo, e no caso aqui, aquele ajuntamento em torno de Pedro e João pode tê-lo deixado apreensivo quanto a algum possível tumulto. Outras funções do capitão do templo: responsabilidade do cerimonial e supervisão de todo o corpo de sacerdotes oficiantes.

(3) os tesoureiros, em número de pelo menos 3. Deveres: providenciar materiais necessários aos sacrifícios, administrar os tributos recebidos e o fruto das ofertas votivas, cuidar de qualquer transação financeira relacionada com o templo, etc.

(4) os supervisores, composto de 7 sacerdotes. Deveres: cuidar das atividades do templo e seus departamentos: música, portaria, panificação, etc.

(5) os diretores do ciclo semanal dos sacerdotes, responsáveis pela condução dos sacrifícios, oblações, purificações, etc., durante os períodos quando cada grupo particular de sacerdotes vinha a Jerusalém para atuar.

 

“saduceus”, os secularizados da época. Não aceitavam a tradição oral dos fariseus, caracterizando-se pela crença de que a lei deveria ser interpretada literalmente, isto é, exatamente na forma como estava escrita, sem a interferência de qualquer tradição explicativa. Consideravam o Pentateuco como de suprema autoridade, superior aos Profetas e Escritos. Não criam na ressurreição (razão porque Jesus mencionou o Pentateuco para responder o questionamento por eles apresentado neste assunto, Luc 20:27ss). Não criam igualmente em anjos e espíritos. Assim se opunham aos fariseus.

O significado do termo, bem como a origem da seita, são incertos. Alguns pensam que o termo deriva de syndikós, termo grego identificativo de um membro do Sinédrio, ou então do hebreu tsaddiq, justo. Outros pensam que receberam esse nome por suas pretensões de lealdade às tradições da família sumo-sacerdotal de Zadoque, o que poderia ser bem pouco evidenciado. De qualquer forma, os sumo-sacerdotes regularmente apontados e empossados eram membros desta seita.

Não eram apreciados em suas crenças pelo povo em geral, que tinham os fariseus em mais alta estima. Todavia, os ricos se colocavam mais ao lado dos saduceus. Pelas altas posições que ocupavam, formavam o partido dominante no Sinédrio, embora não constituíssem a maioria. Os mais nobres e eminentes dentre o povo judeus compunham geralmente a classe leiga dos saduceus.

 

v. 2 - “em Jesus a ressurreição”, a ressurreição não era crida por eles, e assim ficaram ressentidos com a pregação apostólica.

 

v. 3 - “já era tarde”, a esta altura estava próximo o pôr do sol.

 

v. 4 - “quase 5 mil”, incluindo os três mil de 2:41, ou então indicando apenas os crentes de Jerusalém, o que é mais provável. Os anteriores 3 mil incluíam judeus da diáspora. Somente varões são aqui computados.

 

v. 5 - “autoridades, anciãos e escribas”, os 3 grupos que compunham o Sinédrio. Os primeiros equivalem à classe sacerdotal mencionada no v. 1. Os segundos eram indubitavelmente elementos leigos. Os terceiros, os profissionais juristas e intérpretes da lei, a maioria possivelmente composta de fariseus.

 

v. 6 - “Anás”, filho de Seth, apontado como sumo-sacerdote por Quirino, governador romano da Síria, em 6AC, ficando neste posto até 14 ou 15AD quando foi substituído por Ishmael, filho de Phiabi (outra família de sumo-sacerdotes), por ordem de Valério Grato, procurador da Judéia. Ishmael foi substituído pouco tempo depois por Eleazar, filho de Anás, que um ano depois cedeu lugar para Simão, filho de Camitho (outra família de sumo-sacerdotes). Menos de um ano mais tarde foi constituído sumo-sacerdote José Caifás, genro de Anás (João 18:13).

Sequência dos sumo-sacerdotes no contexto da origem e desenvolvimento do cristianismo: Anás (6AC-14/15AD) - Ishmael (de Phiabi) - Eleazar (de Anás) - Simão (de Camitho) - Caifás (de Anás), no poder de 18 a 37AD. Mais ou menos em 3 anos 5 diferentes sumo-sacerdotes ocuparam o poder. Quatro distintas família de sumo-sacerdotes: Phiabi, Anás, Camitho, e Boetho.

Mesmo depois de deposto Anás continuou sendo de grande influência no Sinédrio, daí a presença dele no julgamento de Jesus e nesta oportunidade. Até à morte dele, 5 de seus filhos ocuparam o posto de sumo-sacerdote.

“Caifás”, empossado por Valério Grato e deposto por Vitélio, sendo substituído por Jonatã, filho de Anás.

“João”, muito provavelmente Jonatã, filho de Anás.

“Alexandre”, identidade desconhecida. Provavelmente outro parente do poderoso Anás.

“sumo-sacerdote Anás”, assim citado pela influência que exercia, mesmo depois de deposto.

“linhagem”, Pedro e João diante de uma panela sinedrial.

“Sinédrio”, o concílio de Jerusalém, composto de 71 membros. No tempo do Novo Testamento cada comunidade judaica tinha seu concílio de anciãos, ou presbitério. O de Jerusalém era o mais importante de todos, considerada a “suprema corte”. Todas as comunidades estavam sob a supervisão geral do Sinédrio, que também respondia pelos judeus diante dos romanos. Sua função primária era judicial, interpretando a lei, e determinando a punição dos infratores.

 

v. 7 - “fizestes isto?”, isto é, aquela confusão no templo. A cura de um doente é menos importante que instituições, tradições e dogmas que se vejam ameaçados! “Vós”, humeis, é colocado no fim da frase com o sentido de desdém e escárnio. Em português contemporâneo equivale a: “pessoas como vocês!”

 

v. 8 - “cheio”, plestheís, particípio aoristo de pléto, aponta para um momento especial de dotação, em contraste com o adjetivo pléres, que denota uma característica constante do cristão genuíno (ver p. 17).

 

v.9 - “benefício”, a pergunta das autoridades (v. 7) não se liga à cura do coxo, mas sim ao que sucedeu depois. Pedro, com a sabedoria do Espírito Santo, contrapõe o argumento oponente com uma alusão ao milagre (cf. vv. 14, 16). Uma promessa fora feita para esta ocasião (Luc 21:14, 15).

 

v. 10 - “nome”, ênfase no nome de Jesus

“crucificastes... Deus ressuscitou”, novamente o contraste: Deus reverte a ação pecaminosa do homem. Mas aqui já se propicia uma denúncia: as autoridades estavam realmente agindo contra Deus (cf. o conselho de Gamaliel, 5:38, 39).

Na realidade, pensavam que estavam livres do Messias ao matá-lO; mas estavam agora em maiores apuros do que antes. O milagre se realizara agora no Templo, o que não ocorrera no ministério de Jesus (cf. João 7:2-4).

“este está curado perante vós”, teria o coxo curado sido preso com Pedro e João e agora igualmente trazido diante do Sinédrio? Ou teria sido chamado como testemunha? No primeiro caso, ele poderia ter sido preso por estar implicado no tumulto.

 

v. 11 - da defesa Pedro passa ao contra-ataque

“pedra rejeitada” - sofrimento do Messias, alusão à crucifixão

“pedra de esquina” - glorificação do Messias, alusão à ressurreição

Citação do Sal 118:22, passagem messiânica por excelência, citada desde o tempo de Jesus e por Ele mesmo (Mar 12:10; I Ped 2:6; Rom 9:33; Efés 2:20).

Quem é a pedra no Velho Testamento? Talvez Israel, desprezado pelas nações mas que vem a se tornar a principal entre elas. Mas o ideal de Israel é cumprido pelo Messias.

“construtores”, no Novo Testamento são os líderes judaicos. No Velho Testamento possivelmente os construtores do templo de Salomão.

 

v. 12 - o verso áureo do livro de Atos

“salvação”, sotería, de sózo, curar salvar. A experiência do coxo em ser recuperado é apresentada com o emprego deste verbo no v. 9, sésostai, “curado”. No v. 12 o sentido é transportado da cura física para a salvação do pecado (cf. 5:19). É evidente que o oferecimento da cura (salvação) feito aos membros do Sinédrio (v. 12) é da mesma natureza daquele feito ao coxo e ao povo anteriormente (3:16, 19). Para crerem e se arrependerem teriam que dar, antes, outro passo: reconhecer o pecado de terem rejeitado o Filho de Deus (cf. João 16:8, 9). Mas não deram este passo preliminar, a exemplo do que já haviam feito no ministério de Jesus:

João 9 - a cura do cego de nascença

João 9:28 - “nós já temos um mestre que é Moisés”

João 9:40 - “acaso nós também somos cegos?”

João 8:33 - “jamais fomos escravos de alguém.”

Não sentiam, como o coxo, sua doença e necessidade de cura.

“em nenhum outro... não existe nenhum outro nome”, Jesus não é apenas a esperança de Israel, Ele é a única esperança. Se os líderes persistem em rejeitar a Jesus, não há outro destino para eles e para a nação que não seja a destruição. Isto confirma que aquele que não ouvir as palavras do Profeta semelhante a Moisés será exterminado do meio do povo. Na realidade, os que ouvem o Profeta dão continuidade ao remanescente, em evidência desde os tempos do Velho Testamento (os profetas), e são considerados “filhos dos profetas”. Os que rejeitam são separados deste remanescente. Assim será com a Igreja remanescente e final, da qual uma classe numerosa se afastará ao fim de todas as coisas.

 

v.13 - “iletrados e incultos”, Pedro e João, a exemplo de Jesus, não eram versados nas escolas rabínicas. A exemplo de Jesus também, deixaram os ouvintes admirados pela maneira como manejavam o Velho Testamento. A exemplo de Jesus ainda, sua palavra era evidenciada por uma obra poderosa ali realizada: a cura do coxo. Não puderam deixar de reconhecer que haviam estado com Jesus. Mas deveriam ir mais além e reconhecer que Jesus estava agora com eles, e que aquela poderosa obra e aquela poderosa mensagem eram realmente de Jesus. Mas isto implicaria no reconhecimento de Sua ressurreição e consequentemente no reconhecimento do crime que haviam praticado.

 

vv. 14-16 - o argumento da experiência é imbatível

 

vv. 17, 18 - só há uma alternativa: apelar para a ameaça e se necessário, a violência.

Como Lucas soube do que se passou no Sinédrio? Pedro e João haviam saído, mas Paulo possivelmente estava lá. E se não estava, Gamaliel poderia ter-lhe dito, e ele informado a Lucas. Além disso, poderiam estar presentes alguns simpatizantes dos cristãos. Ou poderiam Pedro e João terem mesmo inferido o que haviam deliberado, agora quando, de volta, escutam a ameaça do Sinédrio.

Os fatos eram por demais plausíveis para serem negados. Na realidade, não vemos em Atos que o Sinédrio tenha tomado qualquer ação para desprovar a verdade central do Kérygma apostólico -- a ressurreição de Jesus. Tivessem eles conseguido isto e teria sido muito fácil deter os avanços do cristianismo.

Assim ficaram eles em situação muito desconfortável, sem saber ao certo que ação tomar:

Por um lado, (1) os apóstolos não haviam quebrado qualquer lei, pelo contrário, haviam feito uma boa obra; (2) eles haviam se tornado muito queridos pelo povo -- eram considerados mesmo heróis. Assim não era prudente puni-los.

Por outro lado, (1) eles anunciavam a ressurreição por Deus dAquele que eles mesmos haviam condenado e crucificado; (2) o que implicava que Aquele que fora desaprovado e rejeitado por eles, era por Deus aprovado. Logo, eles haviam cometido um terrível crime. Assim, considerando que não estavam inclinados para o arrependimento, não era prudente permiti-los continuar a pregação.

Optaram então pela ameaça e violência em lugar de ceder à forte convicção do Espírito Santo e das evidências, e tomarem a única atitude que seria realmente correta: aceitar a Jesus.

Propuseram-lhes liberdade física em troca de liberdade de consciência. Era impossível aceitar tal oferecimento.

Aplicação homilética:

A verdade deixa o ímpio em condições bem desconfortáveis, porque exige dele a tomada correta de posição, a qual não é agradável para sua natureza carnal e pecaminosa. Quando ele se vale apenas de evasivas e não toma a posição que lhe é requerida, a incomodidade permanece, mas inicia-se e se desenvolve um endurecimento no pecado, até que o pecado contra o Espírito Santo seja consumado. Isto é ilustrado na própria experiência do Sinédrio. Seus membros aparecem mais endurecidos no próximo encontro com os apóstolos (5:27, 28, 33). Todavia, o Espírito Santo faz ouvir sua voz através de Gamaliel (vv. 34-39). Concordam com ele, mas assim mesmo mandam açoitar os apóstolos (v. 40). Isto significa resistência ao Espírito Santo. Finalmente ouvem à Estêvão, outra “testemunha” de Jesus (22:20). Continuam a resistir, Estêvão expõe o pecado pelo seu nome exato (7:51), e matam o “profeta”, confirmando o que Estêvão já dissera (v. 52). A voz do Espírito Santo não é mais ouvida por muitos deles. Silenciara-se afinal. Tornam-se realmente culpados de derramarem o sangue inocente, e derramam-no mais uma vez na pessoa de Sua testemunha. “Quando fizerdes a um deste pequeninos que crêem em Mim a Mim o fizestes” (Mat 25:40). Com efeito, recrucificaram a Jesus e este crime lhes custa a salvação (Heb 6:6).

 

vv. 19, 20 - “não podemos deixar de falar”, o verdadeiro testemunho não pode ser contraditado pelos adversários; ameaça e perseguição não podem silenciá-lo. De certa forma, mesmo a morte da testemunha não o silencia. Por isso se diz que o sangue dos mártires era a semente que fazia a planta do evangelho brotar em outras vidas. O testemunho não pode deixar de ser dado pela autêntica testemunha.

 

v. 23 - “irmãos”, a comunidade de crentes em Jerusalém

 

v. 24 - “soberano”, a soberania de Deus é ressaltada em vista de como os acontecimentos transcorreram.

“fizeste”, a criação é evocada. A citação é extraída do 4º mandamento

 

v. 25-27 - “por boca de Davi”, citação do Sal 2. O salmo já era tido como messiânico nos círculos judaicos desde pelo menos o I século AC. As palavras “tu és meu Filho” (v. 7), ditas por Deus a Jesus no Seu batismo, assinalaram-nO como o Messias esperado. Na experiência posterior de Sua condenação e morte, os apóstolos entenderam que os primeiros versos deste Salmo alcançaram cumprimento:

 

PROFECIA

Texto Elemento

CUMPRIMENTO

Texto Evento

v. 25

Gentios

v. 27

Gentios (romanos)

v. 25

Povos

v. 27

Povos de Israel (os judeus que se opõem ao evangelho). No plural porque no Sal 2 o termo está no plural. Israel mais uma vez com caráter mundial, aqui representando todos os povos que rejeitam o Messias

v. 26

reis da Terra

v. 27

Herodes, tetrarca da Galiléia e Peréia (Luc 23:7ss). Aqui com caráter representativo de todos os reis da Terra, que rejeitam o domínio do Messias

v. 26

autoridades

v. 27

Poncio Pilatos, também com caráter representativo.

 

“santo servo Jesus”, extraído de Isaías. “Servo” em conjunção com Filho (Sal 2) foi usado por Deus Pai no batismo de Jesus. O servo sofredor é Aquele designado para ser Rei.

“ungiste”, faz inegavelmente referência ao batismo. Grego chrío, ungir, advindo daí Christós, Cristo; corresponde ao hebreu mashah, daí advindo Mashiah, Messias.

 

v. 28 - agindo desta maneira, simplesmente estavam estes adversários cumprindo o propósito de Deus, de que o Messias deveria sofrer. Há uma tensão entre o propósito divino e a atitude humana de rejeitá-lO e matá-lO, conciliada no fato de que a mensagem de salvação pela morte de Jesus é enviada e deve levar o homem ao arrependimento. O crime de matar o Messias é atribuído ao homem se ele rejeita o oferecimento do perdão. No dia do juízo, os perdidos serão condenados como traídores, o mesmo crime de Judas, e dos judeus impenitentes (Atos 7:52).

 

v. 29 - “ameaça” “intrepidez”, as ameaças do Sinédrio tão somente produzem maior intrepidez nos pregadores. Não pedem a Deus que castigue os membros do Sinédrio, nem que os leve a parar com a intolerância.

 

v. 30 - “sinais e prodígios”, como evidência da exaltação de Cristo; querem que continuem a ocorrer. A oração é respondida: 5:12-16 e também 4:33.

“nome do Santo Servo”, mais uma vez o nome é referido.

 

v. 31 - “tremeu o lugar”, sinal da presença e aquiescência divinas.

“cheios do Espírito Santo”, uma reminiscência do próprio dia do Pentecoste: (1) por um lado sinais externos do advento do Espírito; (2) por outro lado, os discípulos em oração

 

vv. 32-35 - um sumário em paralelo com 2:43-47. Novamente se tem a informação da comunidade de bens, agora para introduzir os episódios de Barnabé e Ananias.

v. 33 - “os apóstolos davam testemunho com poder”, pode implicar que a Igreja possuía recursos providenciais para a expansão da obra, mas especialmente que os apóstolos não se envolviam no emprego dos bens materiais da igreja, ficando isto a cargo de outras pessoas (cf. 6:1ss).

v. 34 - “em todos eles abundante graça... não havia necessitados”, o quadro inicial da Igreja em Jerusalém -- os ricos repartiam com os pobres, e todos tinham o que necessitavam. Deus permitiu mais tarde que esta igreja passasse por privações para que os gentios se solidarizassem com os judeus.

vv. 36, 37 - o altruísmo de Barnabé (bar-nabbi, filho da profecia, da exortação, da consolação).

v. 37 - “campo”, agrós, um campo cultivado, denotando mais valor que choríon em Atos 1:18, uma área transformada em cemitério, no caso de Judas, e Atos 5:3, 8, referente à propriedade de Ananias e Safira.

 

CAPÍTULO 5

 

V. 1 - “Ananias”. O episódio de Ananias é para o livro de Atos o que o episódio de Acã é para o livro de Josué. Talvez seja esta a intenção do autor. “Reteve” de Atos 5:2 é o mesmo verbo grego para “tomou” de Jos 7:1 na LXX.

Dificuldade no relato de Atos 5 para os comentaristas que negam a intervenção divina nas circunstâncias ali referidas. A razão primária desta dificuldade é a tendência para não se aceitar a genuinidade histórica do evento. Hipóteses:

(1) Ananias e Safira infringiram inconscientemente algum tipo de tabu e foram punidos, como se o movimento cristão fosse algum tipo de trabalho ligado à magia.

(2) morte de Ananias e Safira foi natural (morreriam de qualquer forma) mas coincidiu ser logo após à repreensão de Pedro. A Igreja então atribuiu-a à própria repreensão do apóstolo.

(3) Ananias e Safira foram os primeiros a morrer dentro da comunidade cristã. Cristãos pensavam que, considerando que Cristo vencera a morte, os crentes não mais morreriam. Tiveram que explicar porque ambos morreram. Por amor à coerência atribuíram a morte a um pecado específico.

(4) As palavras de Pedro foram muito duras, e provocaram tal choque emocional no casal que o coração não suportou.

 

v. 24 - “ficaram perplexos”, a exemplo do que ocorrera na primeira prisão dos apóstolos (cap. 4), um milagre aqui se faz presente; “do que viria a ser isto” implica na incredulidade dos membros do Sinédrio, particularmente os saduceus (não acreditavam em anjos). Mas o fato impressionou outros, como Gamaliel, que daria em seguida o seu parecer.

 

v. 28 - novamente o ato miraculoso é ignorado.

 

v. 30 - o crime do Sinédrio é mais uma vez exprobrado. Deus, todavia, reverteu a má ação dos homens. Mas os próprios sacerdotes havia pedido que o sangue do Justo fosse requerido deles (Mat 27:25), e agora, em vista de sua incredulidade, isto era feito (Atos 5:28).

“num madeiro”, penalidade dos amaldiçoados, referida em Deut 21:23 (cp. Gál 3:13).

 

v. 31 - o tribunal humano sentenciou Jesus a pagar a penalidade dos amaldiçoados, mas Deus reverteu esta sentença exaltando-O a “príncipe e Salvador”, em virtude do que, Ele mesmo, Deus, pode oferecer a Israel o “arrependimento e a remissão dos pecados”. Se o Sinédrio não se arrepender, estará se excluindo do Israel de Deus.

 

v. 32 - o Espírito Santo testifica (ver João 15:26) através do testemunho humano, isto é, o testemunho da Igreja é um com o testemunho do Espírito (ver Apoc 22:17). Outra vez a personalidade do Espírito Santo é personalizada.

“obedecem”, no presente contexto é a obediência em relação a que Jesus é, e o que Ele tem ensinado, inclusive a ordem de testemunhar (v. 29).

 

v. 33 - o que desejaram fazer agora com os apóstolos, acabaram fazendo com Estêvão, no encontro seguinte com uma testemunha cristã (cap. 7).

 

v. 34 - “fariseu”, do hebreu perushim, separados.

 

vv. 36, 37 - “Teudas... Judas”, Josefo registra dois falsos messias com estes nomes mas numa sequência inversa, Judas e Teudas. Alguns acusam Lucas de imprecisão histórica. Mas devemos lembrar que Judas era um nome muito comum entre os judeus na época, e um segundo falso messias com este nome, surgido mais recentemente, não é impossível de ter ocorrido. Segundo este historiador, Judas apareceu por volta de 6AD e Teudas depois de 44AD. O referido encontro do Sinédrio com os apóstolos ocorreu bem antes desta última data. Possivelmente nem Judas nem Teudas, referidos por Gamaliel, são os mesmos referidos por Josefo. O nome Teudas era também comum entre os judeus.

 

v. 39 - “lutando contra Deus”, literalmente o que o Sinédrio vinha fazendo e continuaria a fazer em seu relacionamento com a mensagem cristã. Mas a própria Igreja pode incorrer neste perigo hoje, se, no aspecto institucional/administrativo, tentar fazer valer mais a sua vontade do que a de Deus.

 

v. 40 - “açoitaram-nos”, contra-senso do Sinédrio: julgaram que Gamaliel tinha razão mas assim mesmo consideraram os apóstolos dignos de açoites.

 

v. 42 - “templo”, ainda era palco da pregação cristã (ver v. 20). Deixará de sê-lo, no entanto, com a morte de Estêvão. Daí por diante o evangelho seria também estendido aos gentios, que naturalmente estavam desvinculados do templo.

“de casa em casa”, o evangelismo apostólico pessoal.

 

CAPÍTULO 6

 

v. 1 - “murmuração dos helenistas”, a Igreja nesta época estava composta por judeus da Palestina e judeus da Dispersão. Problemas começaram a ocorrer entre os 2 grupos, e o diabo aqui intentou uma divisão, como ele tentaria mais tarde com os blocos judeus e gentios. Aqui, os da Dispersão começaram a alegar que suas viúvas não recebiam a mesma atenção que as viúvas da Palestina.

v. 2 - o problema seria resolvido pela comunidade cristã. Os apóstolos fizeram a devida convocação para que uma solução fosse estabelecida. Eles mesmos não poderiam cuidar das viúvas e ainda cumprir o ministério da pregação.

 

v. 3 - aqui se origina o cargo do diaconato na Igreja. Qualificações: boa reputação, cheios do Espírito, cheios de sabedoria.

 

v. 4 - “oração... ministério da palavra”, não significa que só os apóstolos deveriam orar e pregar. Os diáconos, como quaisquer outros membros da Igreja, deveriam cumprir a missão do testemunho. Evidência disto pode ser observado na própria atitude de Estêvão a seguir, um dos 7 escolhidos.

 

v. 5 - os nomes dos sete. Parece serem da Diáspora (helênicos). Nicolau é dito ser prosélito de Antioquia, o que seria uma exceção. A Igreja foi inteligente na escolha, já que eram os helênicos que reclamavam. Nicolau teria sido, então, o primeiro gentio a aceitar a fé cristã.

 

v. 6 - “impuseram-lhes as mãos”. O diaconato requer ordenação desde a sua origem.

 

v. 7 - sumário. A expansão da Igreja é sempre referida. Mas a referência a Jerusalém demonstra certa centralização de fé, que seria desfeita pela perseguição sequente à morte de Estêvão (8:1).

 

v. 8 - “cheio”, pléres, indica contínua dotação de poder espiritual como uma qualificação de vida.

“prodígios e grandes sinais”, da mesma natureza daqueles efetuados pelos apóstolos, portanto não se limitavam a estes.

 

v. 9 - “sinagoga”, instituída provavelmente no tempo do exílio babilônico para leitura e exposição da lei. Os judeus acabaram por entender que o exílio viera em resultado do desprezo à Torah da parte do povo. A instituição da sinagoga visava restaurar o conhecimento da lei e impedir que o exílio levasse os judeus a se esquecerem de sua tradição histórica e religiosa. Nas terras da Diáspora ela constituía o centro geral da comunidade judaica. Dependendo do tamanho, uma cidade poderia conter diversas sinagogas. Segundo o Talmude, havia 480 sinagogas em Jerusalém antes de 70AD, o que deve ser um exagero.

“Libertos”, ou Líbios, conforme alguns comentaristas. Mas esta é uma idéia especulativa. O mais provável é que a expressão se refira a judeus que, desde o tempo da invasão de Pompeu, haviam se tornado escravos de Roma, e foram posteriormente libertados. Portanto, estes e seus descendentes formaram a sinagoga dos Libertos. Para alguns, esta sinagoga situava-se em Jerusalém e era composta por membros provenientes dos locais mencionados no verso.

“Cireneus”, de Cirene, cidade colonial grega, situava-se ao norte da África a alguns quilômetros do Mediterrâneo. Era uma das 5 cidades gregas chamadas Pentápolis, existentes na Líbia Cirenaica, hoje Trípoli.

“Alexandrinos”, de Alexandria, no Egito, um dos maiores centros de cultura helênica. “A tradução das Escrituras Hebraicas para a língua grega começou no Egito, provavelmente nesta cidade no terceiro século e terminou no segundo século AC. Foi aqui, também, que o espírito da filosofia grega permeou o judaísmo, e onde exegetas como Filo, deram às Escrituras Sagradas uma interpretação excessivamente alegórica.” (J. D. Davis, Dicionário da Bíblia, p. 25).

“Cilícia”, cuja cidade principal, Tarso, era a cidade-natal de Paulo. Possivelmente Saulo era um dos que debatiam com Estêvão.

“Ásia”, ou Ásia Menor, onde várias igrejas viriam a ser estabelecidas. A julgar pelos lugares aqui referidos, podemos crer que Estêvão teve pela frente opositores do mais alto nível cultural, tanto filosófico como religioso. Mas ninguém foi capaz de sobrepujar a argumentação da testemunha cristã (v. 10). Tiveram que apelar para recursos menos recomendáveis.

 

v. 11 - “subornaram”, isto é, falsas testemunhas foram compradas para prestarem o seu depoimento contra Estêvão. Segundo se nota nos vv. 13, 14, o falso testemunho aqui está em paralelo com aquele apresentado contra Jesus no Sinédrio (Mat 26:60, 61). Existem vários paralelos entre os dois julgamentos e condenações. Parece que Deus outorgou três anos e meio de oportunidade ao povo judeu no ministério de Jesus com ênfase no oferecimento da salvação à comunidade da Palestina, e mais três anos e meio de oportunidade a este mesmo povo no ministério agora da Igreja, incluindo também a comunidade da Diáspora, para que os judeus, como um todo, firmassem sua posição quanto ao Messias. Um só e o mesmo Sinédrio, já que este possuía autonomia sobre os judeus de todos os lugares, deveria agora definir esta posição uma vez por todas. O fim das 70 semanas de Dan 9 era chegado.

 

v. 12 - “sublevaram o povo”, zelo sem entendimento pelo templo leva o povo, que antes olhava os pregadores cristãos com simpatia e admiração (5:13, 26), a se indignar contra Estêvão. O apoio popular antes existente em favor do cristianismo, agora inexiste.

 

v. 13 - “lugar santo e ...a lei”, o templo e o sistema que regia o seu ritual.

O testemunho era falso desde que Estêvão não estava falando propriamente contra o templo e a lei, tampouco que Jesus destruiria a ambos. O que Estêvão anunciava era que Jesus era o cumprimento de todo o serviço sacrificial do templo, bem como de todas as promessas e bens anunciados no Velho Testamento. Tivessem o povo e o Sinédrio aberto o coração à pregação apostólica, à luz enviada por Deus desde três anos e meio antes, isto é, desde o Pentecostes, e estariam agora amadurecidos, ou preparados para aquilo que o Messias e Sua mensagem significavam para o templo em particular, e para o judaísmo em geral. Seu apego idolátrico às instituições religiosas, todavia, os levou a rejeitarem aquilo que, unicamente, faria o templo permanecer. Eles mesmos estavam destruindo o templo, e não Jesus (v. 14). Em sua cegueira religiosa e ignorância do plano de Deus, seriam levados a se rebelar contra os romanos que invadiriam Jerusalém e acabariam com o templo, o que ocorreu 40 anos depois da cruz, em 70AD.

 

v. 15 - “rosto de anjo”, em paralelo com o que ocorreu com Jesus e com os que o aprisionaram (João 18:6).

CAPÍTULO 7

 

v. 1 - A Estêvão é dada a oportunidade de defesa contra a acusação de blasfêmia contra Moisés e Deus (6:11), evidentemente daquilo que era acusado de afirmar sobre o templo e a lei (vv. 13, 14). Mas Estêvão, na realidade, não se defendeu. Defendeu, sim, a mensagem cristã, através de um relato da intervenção divina na história de Israel, numa forma apreciada pela mentalidade rabínica. Da defesa ele partiu para o ataque na parte final.

vv. 2-53, o discurso

Já que este é uma resposta à acusação feita contra Estêvão, é natural dividi-lo em duas partes distintas, além da introdução e da conclusão. Incluindo estas, temos:

I. Introdução - o período patriarcal, vv. 2-16

II. Moisés e a Lei - a resposta à acusação de blasfêmia contra Moisés, vv. 17-43

III. O Tabernáculo e o Templo - a resposta à acusação de blasfêmia contra Deus, vv. 44-50

IV. Conclusão (abrupta) - a incredulidade judaica, vv. 51-53

 

I PARTE - INTRODUÇÃO, o Período Patriarcal - vv. 2-16

Em relação ao objetivo final do discurso, exprobrar a incredulidade judaica, os seguintes pontos são dignos de nota:

v. 5 - “não lhe deu herança”. Os patriarcas foram peregrinos na terra da promissão. Não se apegaram a um cumprimento literalístico da promessa ainda nesta vida. Isto era uma advertência, nas entrelinhas, para que os judeus não colocassem suas afeições no templo e em outras instituições materiais ligadas à presente era. A única parte da terra prometida como herança, que os patriarcas conseguiram lograr por recursos próprios, foi o campo servido para sepultura (v. 16), por sinal um lugar considerado sagrado pelos samaritanos desprezados pelos judeus.

v. 7 - “me servirão neste lugar”, um local que não correspondia ao sítio do templo. Logo, Deus pode ser adorado em outro local.

v. 9 - “invejosos”, isto é, os irmãos de José tinham inveja dele, como os judeus estavam invejosos de Cristo agora (5:17; cf. Mar 15:10).

“Deus estava com ele”, com José. O mesmo é dito de Cristo (Atos 10:38). Na realidade, José é um tipo bem apropriado de Jesus.

v. 10 - “constituiu governador”, depois de toda a humilhação, vendido como escravo pelos próprios irmãos, sendo injustiçado no caso da mulher de Potifar, indo para a prisão embora inocente, etc., José foi devidamente exaltado e honrado; um claro paralelo do que ocorreu com Jesus.

v. 11 - “nossos pais não achavam mantimentos”, foram achá-los no Egito, nas mãos de José. Nas entrelinhas: o José, a quem rejeitaram e baniram, dele mesmo se tornaram dependentes para a sua subsistência e permanência. Da mesma forma, a nação judaica, para subsistir espiritualmente, dependeria exclusivamente do Messias. Os irmãos de José se arrependeram do que haviam feito com ele e o reconheceram. Todavia, os judeus não se arrependeram do que fizeram com Jesus nem O reconheceram.

 

II PARTE - Moisés e a Lei, vv. 17- 43

v. 18 - “outro rei que não conhecia a José”, o Faraó que exaltou a José (v. 10), era indubitavelmente da linhagem dos hicsos, que governaram o Egito da 12ª à 17ª dinastia. Eram reis pastores. O pastoreio era um ponto comum com os hebreus, o que contribuiu para que Jacó e sua casa fossem bem recebidos no Egito. Os hicsos dominaram aproximadamente de 1800 a 1550AC. O “rei que não conhecia” a José aponta para a 18ª dinastia, sediada em Tebas, que sucedeu os hicsos, agora derrotados e expulsos do Egito. Temendo que os hebreus viessem, com a passagem do tempo, a se transformar em novos hicsos, isto é, novos dominadores estrangeiros, os egípcios passaram a oprimi-los e escravizá-los, e tramaram impedir o seu crescimento (v. 19).

v. 21 - “filha de Faraó”, reconhecida por alguns cronólogos e autoridades em história bíblica, como Hatshepsut, filha de Tuthmosis I, princesa e rainha-reinante da 18ª dinastia. Outros monarcas egípcios ligados à vida de Moisés foram: Tuthmosis III (1482-1450AC), faraó reinante quando Moisés matou o egípcio e fugiu (v. 29); Amenhotep II (1450-1425AC), o faraó da volta de Moisés ao Egito e do êxodo; Tuthmosis IV (1425-1412AC), o faraó da peregrinação de Israel pelo deserto, não o primogênito de Amenhotep II, que morrera vítima da última praga caída sobre o Egito; Amenhotep III (1412-1375AC), o faraó da entrada de Israel em Canaã (vv. 34-36).

vv. 25-39 - Moisés pensava que os israelitas entenderiam que Deus queria, por meio dele, libertar a Israel, mas eles “não compreenderam” (v. 25). Evidência disto são as palavras “quem te constituiu autoridade e juiz sobre nós?”, proferidas por um dos que brigavam (v. 27). Em seguida Moisés fugiu, passando 40 anos fora do Egito, no fim dos quais Deus lhe apareceu e o enviou de volta para o cumprimento de sua missão. “A este a quem negaram reconhecer... enviou Deus como chefe e libertador”, isto é, Deus suscitara-lhes o libertador que eles rejeitaram não somente antes do êxodo (v. 27), mas igualmente depois, durante os 40 anos de peregrinação no deserto (v. 39). O paralelo é óbvio: os judeus rejeitaram a Cristo antes da cruz (o verdadeiro êxodo), e depois da cruz, na mensagem apostólica. Com isto estavam seguindo o exemplo dos pais. Que Moisés é um tipo de Cristo, é claramente lembrado no v. 37 (cf. Heb 3:7-4:10 onde o escritor sagrado comenta os 40 anos de rebeldia no deserto como tipológico da experiência dos judeus no período subsequente à cruz).

v. 33 - “terra santa”, o local da sarça ardente, tornado santo pela presença divina. É precisamente este fato que faz um local ser sagrado, e não o local propriamente dito. Os judeus consideravam o templo o único lugar de culto (João 4:20). Mas não entenderam que, rejeitando a Cristo, Deus não mais se faria presente ali.

v. 38 - “congregação”, ekklesía. “Como Moisés estava com a antiga ekklesía, Cristo está com a nova, a ainda peregrina ekklesía, ‘a igreja no deserto’”. (Bruce, p. 152).

 

III PARTE - O Tabernáculo e o Templo - vv. 44-50

v. 44 - “segundo o modelo”, o tabernáculo do deserto e posteriormente o templo não eram de caráter definitivo, mas cópia do permanente, o da realidade messiânica. Este ponto é discutido na epístola aos Hebreus.

v. 48 - “o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas”, o ponto crucial para os judeus. Estêvão comprova esta solene declaração com um texto do Velho Testamento (vv. 49, 50 = Isa 66:1, 2). Aqui ele compreendeu que não teria chance de prolongar o discurso. Deveria concluí-lo mas não sem dar o recado que os ouvintes tinham de ouvir.

 

IV PARTE - Conclusão, vv. 51-53

“Quando Estêvão atingiu este ponto (vv. 48-50), houve tumulto entre o povo. Quando estabeleceu conexão entre Cristo e as profecias, e falou, como fizera, a respeito do templo, o sacerdote, pretendendo estar tomado de horror, rasgou as vestes. Para Estêvão, este ato foi um sinal de que sua voz logo silenciaria para sempre. Viu a resistência que encontraram suas palavras, e compreendeu que estava a dar seu último testemunho. Embora no meio de seu sermão, concluiu-o abruptamente.” (Atos dos Apóstolos, p. 100)

v. 51 - “incircuncisos de coração”, circuncisão da carne não tem valor algum diante de Deus quando não simultânea com a circuncisão do coração. Não é a circuncisão física que determina o verdadeiro judeu, mas a do coração (Rom 2:28, 29). Barreiras nacionalísticas e étnicas são desfeitas diante do evangelho; não têm valor algum, portanto, para determinar quem é e quem não é povo de Deus. Assim, a salvação é universal e o exclusivismo judeu é removido. Após a morte de Estêvão, o evangelho será levado a todo o mundo gentio.

“resistis ao Espírito Santo”, o pecado de rejeitar a Jesus como verdadeiro Messias enviado de Deus, é na realidade o pecado de resistir ao Espírito Santo, para o qual, uma vez consumado, não há perdão (Mat 12:31, 32).

“vossos pais”, em contraste com “nosso pai” no v. 2, e “nossos pais” nos vv. 11, 15. Os judeus incrédulos davam os mesmos passos que os antepassados haviam dado. Os pais deles haviam matado os profetas que anunciavam a vinda de Jesus; eles mataram a Jesus, e agora confirmavam seu posicionamento matando a testemunha de Jesus (v. 51). Enchiam, assim, a medida da iniquidade deles (Mat 23:32; observe todo o contexto desta passagem, nos vv. 29-39). O que ocorreu com os judeus no princípio da Igreja, ocorrerá com o mundo no fechamento do ministério da Igreja (ver Apoc 17:6; 18:5, 24). Que os antepassados dos judeus resistiram o Espírito Santo é claramente afirmado em Isa 63:10.

v. 52 - “agora”, estavam atingindo o ponto de serem rejeitados como nação eleita. “Agora” é que eles eram tidos como “traidores” e “assassinos” do Filho de Deus, não três anos e meio antes quando haviam-nO levantado na cruz. As 70 semanas de Dan 9 chegavam ao final.

v. 53 - “não a guardastes”, eles se gloriavam na lei, mas em sua cegueira não viam que eram transgressores da lei. Este ponto seria posteriormente desenvolvido por Paulo em sua teologia da justificação pela fé. Basta lembrarmos agora que Saulo era um dos que ouviam a Estêvão. A transgressão da lei pelos judeus neste contexto é para ser vista no que eles haviam feito com Jesus e continuavam fazendo.

 

O DESFECHO - vv. 54-60

v. 54 - “enfureciam-se... rilhavam os dentes”, o pecado contra o Espírito Santo vai se configurando e alcança seu ápice nos vv. 57, 58, onde é dito que clamaram em alta voz (para abafar a voz de Estêvão), taparam os ouvidos, arremeteram-se contra ele, lançaram-no fora da cidade, e o apedrejaram. Jesus também foi morto fora da cidade.

v. 55 - “cheio”, pléres, indica experiência contínua, característica de sua vida cristã. Viveu pleno do Espírito, morreu pleno do Espírito.

“glória de Deus”, em contraposição com o shekinah do templo. Aqui é o templo definitivo, o celestial. O Filho do homem, Jesus Cristo, é visto à direita de Deus, participando desta glória, o mesmo que os judeus agora rejeitavam. O quadro é demais para os ouvintes e eles tomam a atitude reportada nos vv. 57, 58. A visão final de Estêvão é paralela ao que Jesus afirmou ao Sinédrio por ocasião de seu pré-julgamento (Mat 26:64). Em outras palavras, o quadro é evocativo do juízo que se abateria sobre os judeus. Com esta visão fica evidenciado que todas as instituições da Velha Dispensação alcançaram seu cumprimento, e quem a elas se apegasse, apegar-se-ia a coisas obsoletas. Indica também que o pecador tem acesso direto a Deus, através do Messias, e que o evangelho deveria se dirigir a todas as nações (cf. a profecia de Dan 7:13, 14, onde o Filho do homem é colocado diante do Ancião de Dias e todos os povos, nações, e línguas, deverão servi-lO). “Não há mais lugar para qualquer instituição que dê privilégios religiosos a uma nação em particular, tal como o culto tradicional do templo deu aos judeus.” (Bruce, p. 167)

“em pé”, indica a posição de uma testemunha num tribunal, Cristo, confessando o nome de Estêvão diante do Pai, enquanto Estêvão confessa o nome de Cristo diante dos homens. Na verdade, temos aqui as cenas de dois tribunais: um na Terra, o Sinédrio que condena unanimemente a Estêvão; outro no céu, a corte divina que justifica a Estêvão. Condenado pelos homens, aprovado por Deus! Este é o ponto final da vida terrena de todos aqueles que, como mártires fiéis, derramam o sangue em testemunho da verdade. Mas antes de tudo, essa foi a experiência de Jesus.

vv. 59, 60 - “...recebe o meu espírito... não lhes imputes este pecado”, palavras evocativas das palavras de Jesus na cruz. Convém notar que a testemunha ora a Jesus, enquanto Jesus na cruz invocou o Pai. Isto evidencia a divindade de Jesus.

A oração de Estêvão foi atendida. Pelo menos um dos que consentiram em sua morte, Saulo, tornou-se cristão. Mas note que Saulo participou do apedrejamento de Estêvão “por ignorância” (I Tim 1:13). Não pecara, portanto, contra o Espírito Santo.

 

Dez Paralelos Entre Jesus e Estêvão

 

01. Sinais e prodígios por ambos

02. Os adversários não puderam contestar a ambos

03. Contra ambos foram subornadas falsas testemunhas

04. O teor de ambos os falsos testemunhos foi praticamente o mesmo

05. Ambos impressionaram os adversários pelo porte e aparência do rosto

06. Ambos não se defenderam mas exprobraram a incredulidade dos adversários

07. Ambos fizeram referência ao Filho do homem à direita de Deus

08. Ambos foram executados fora de Jerusalém

09. Ambos encomendaram o espírito (Jesus ao Pai, Estêvão a Jesus)

10. Ambos pediram perdão em favor dos executores

 

(procure outros que você achará)

 



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